Existe data comemorativa para tantas coisas que já estava na hora de ter um dia para lembrar (e praticar) boas ações. A iniciativa é de um grupo colaborativo chamado - corrente do bem - que pretende mobilizar 64 países no dia 25. Já pensou que fantástico ter milhares de pessoas ao redor do mundo, conscientemente buscando passar boas ações adiante?
"Movimento colaborativo - A Corrente do Bem - celebrará o Dia Mundial da Boa Ação em 64 países!
Na próxima quinta-feira, 25 de abril, o Dia Mundial da Boa Ação – marco anual do movimento colaborativo - A Corrente do Bem – integrará 64 países em torno de ações de gentileza. No Brasil, a data será celebrada pelo terceiro ano consecutivo e conta com a adesão de empresas e organizações como Primavera Editorial, ONG Banco de Alimentos, Shopper Experience, projeto Caçadores de Bons Exemplos e Imaginarium, entre outras, além de iniciativas de inúmeros cidadãos anônimos.
Inspirada no Pay it Forward Day – surgido na Austrália, em 2007, alusivo ao livro Pay it Forward, de Catherine Ryan Hyde, e ao filme protagonizado por Kevin Spacey, Helen Hunt, James Caviezel e Haley J. Osment – A Corrente do Bem é um movimento da sociedade civil que tem a proposta de mobilizar as pessoas a incluir práticas e ações de gentileza no cotidiano."
Talvez - "a corrente do bem"- já faça parte da sua forma de ver e agir no mundo, mas nada melhor do que estimular boas ações entre as pessoas que convivemos, inclusive as crianças.
Você está sem ideia do que fazer no dia 25? Não se preocupe, aqui vai algumas sugestões para você e para também envolver as crianças!
Fazer o bem faz bem, né gente!
SUGESTÕES DO BEM DA AME EDITORINHA
(não esqueça de envolver as crianças!)
1- Leia para uma criança
2- Separe os livros que você não lê há algum tempo e passe adiante.
3- Faça bilhetinhos de gratidão para pessoas que te ajudaram de alguma forma no último mês (mensagens no facebook também valem!). Será que você consegue fazer alguma coisa para retribuir a gentileza recebida?
4- Convide as crianças para fazerem desenhos de gratidão e quem sabe entregá-los também?
5- Faça um bolo ou algo que você goste de fazer e dê de presente para alguém que precisa (inclusive de afeto);
6 - Tire cópias das suas mensagens, versos, textos preferidos e distribua boas sementes por aí;
7 - Ligue ou visite alguém que está doente, um idoso, um amigo que você não conversa há tempos;
8 - Além dos livros, esvazie os armários e gavetas daquilo que não te serve mais, porém pode ajudar muita gente;
9 - Assuma uma postura interna de espalhar gentilezas no dia 25 (Aliás, avise as pessoas que trata-se do dia mundial da Boa Ação)
10 - Distribua elogios sinceros - lovebacks - Sabe aquilo que você pensa e acaba não dizendo para as pessoas da sua família, do seu trabalho, do seu grupo de convivência e até os desconhecidos que prestam algum serviço no seu cotidiano?
11- Ofereça ajuda sincera;
12 - Se você tem vontade de fazer algum trabalho voluntário, quem sabe dia 25 é o momento de você procurar uma instituição do seu perfil e interesse?
13 - Com as crianças não perca a oportunidade de explicar o que é gentileza e estimular pequenas ações entre os amiguinhos e na própria família. Quando as crianças entendem do que se trata, até ajudar a preparar o jantar pode ser diferente!
14 - Você tem mais sugestões? Compartilhe conosco!
(Fonte: WASHINGTON UNIVERSITY SCHOOL OF MEDICINE )
texto de : Jim Dryden - matéria publicada em 30 de janeiro de 2012
O hipocampo (destacado em pink na imagem) é uma estrutura cerebral chave para o aprendizado, a memória e a resposta ao estresse. Novas descobertas mostram que crianças cujas mães foram amorosas e nutridoras desde os primeiros meses de vida apresentam um hipocampo maior do que crianças cujas mães não tiveram a mesma postura emocional.
Uma nova pesquisa realizada por psiquiatras e neurocientistas pediátricos da Escola de Medicina da Universidade de Washington, foi o primeiro estudo a detectar as mudanças, em uma região crítica da anatomia cerebral em crianças, associadas ao comportamento nutridor de suas mães.
A pesquisa foi publicada online na revista Proceedings of the National Academy of Sciences Early Edition.
"Esse estudo valida algo que até então parecia ser intuitivo, o quanto é importante o afeto, a nutrição emocional no desenvolvimento de seres humanos adaptados", diz a professora de psiquiatria infantil, principal autora do estudo. Joan L. Luby. "Eu penso que as implicações na saúde mental sugerem que nós deveríamos prestar mais atenção na nutrição afetiva dos pais com relação aos seus filhos, e nós deveríamos ainda enquanto sociedade, proporcionar oportunidades de desenvolver essas habilidades, já que pais nutridores tem um impacto muito, muito grande no desenvolvimento posterior de seus filhos."
O estudo de imagens cerebrais foi feito ao longo de seis anos com 92 crianças, sendo que 40 foram selecionadas por apresentarem sintomas de depressão.
Parte do estudo inicial, as crianças que tinham de 3 a 6 anos, foram observadas e filmadas interagindo com um dos pais, geralmente a mãe. Enquanto a mãe completava uma tarefa solicitada, a criança era orientada a esperar para abrir um presente atrativo. O grau do quanto a mãe era mais ou menos hábil em dar o suporte emocional para que a criança lidasse com a situação estressora - situação esta parte do cotidiano da parentagem - foi avaliada em escalas por pesquisadores que não sabiam nada sobre a história ou saúde mental da criança e sua família.
"A avaliação é bem objetiva," diz Luby, "Não consideramos os pais nutridores afetivamente baseado em suas auto-percepções. Ao invés disso, nos baseamos em seus comportamentos, suas reações com seus filhos, diante de condições desafiadoras."
Luby
Quando comparadas as imagens cerebrais das crianças, com a avaliação do comportamento nutridor dos pais, os pesquisadores constataram que crianças sem sintomas de depressão com pais nutridores afetivamente, apresentaram um hipocampo 10% maior do que as outras crianças cujos pais apresentaram baixas respostas de nutrição afetiva.
"Anos de estudos revelam a importância do afeto, do suporte emocional para o desenvolvimento saudável das crianças," diz Luby. "Porém a maioria desses estudos concentraram-se em evidências psicossociais. A pesquisa que realizamos, na minha opinião, é o primeiro estudo a demonstrar mudanças na anatomia cerebral confirmando toda literatura que afirma a importância do afeto dos pais na formação das crianças. Ter um hipocampo 10% maior nos fornece uma evidência concreta do efeito poderoso da nutrição afetiva dos pais em seus filhos."
Crianças com sintomas depressivos apresentam um hipocampo menor, assim como ocorrem em adultos. Entretanto, o que realmente surpreendeu os pesquisadores foi em função do suporte emocional dos pais, a diferença produzida no tamanho do hipocampo em crianças saudáveis.
Apesar de 95% dos pais que participaram do estudo terem sido as mães biológicas, os pesquisadores dizem que os efeitos no hipocampo das crianças em função do afeto e da nutrição emocional recebida são os mesmos para qualquer cuidador primário - ou seja, pais, avós ou pais adotivos podem exercer o mesmo impacto.
Luby diz que os educadores que trabalham com famílias de crianças pequenas podem ajudar a melhorar o desempenho da criança na escola não apenas ensinando os pais a acompanhar as tarefas escolares, mas também demonstrando aos pais como trabalhar com seus filhos. "Os pais podem aprender habilidades para fornecerem mais suporte emocional aos seus filhos." conclui Luby
Luby JL, Barch DM, Belden A, Gaffrey MS, Tillman R, Babb C, Nishino T, Suzuki H, Botteron KN. Maternal support in early childhood predicts larger hippocampal volumes at school age. Proceedings of the National Academy of Sciences Early Edition, Jan. 30, 2012. www.pnas.org/cgi/doi/10.1073/pnas.1118003109.
Funding for this research comes from grants awarded by the National Institute of Mental Health of the National Institutes of Health (NIH).
Washington University School of Medicine’s 2,100 employed and volunteer faculty physicians also are the medical staff of Barnes-Jewish and St. Louis Children’s hospitals. The School of Medicine is one of the leading medical research, teaching and patient care institutions in the nation, currently ranked fourth in the nation by U.S. News & World Report.Through its affiliations with Barnes-Jewish and St. Louis Children’s hospitals, the School of Medicine is linked to BJC HealthCare.
imagem do livro "Jardim Secreto" de Andrei Moreira, ilustradora Patrícia Tavares
Um dos aspectos importantes que os pais e educadores precisam se lembrar quando o assunto é agressividade e bullying, vamos chamar aqui de: sofrimento calado. Ou seja, tanto vítimas quanto agressores, dificilmente manifestam seu pedido de ajuda, seja para solicitar proteção ou solicitar limites,através de palavras.
Os pedidos de ajuda das crianças se processam através da linguagem não-verbal, predominantemente.Perceber as crianças para além daquilo que é dito é um exercício de amorosidade. Muitos pais ficam assustados quando descobrem que seus filhos nunca contaram que um colega os tem atormentado na escola. Por outro lado, dificilmente os agressores também voltam para casa contando o que fizeram com o colega.
Não é por acaso que a proximidade, a intimidade, o tempo de qualidade com as crianças é fundamental. Infelizmente a internet, a televisão e os jogos de videogame se tornaram as babás do nosso tempo. Mesmo estando no mesmo ambiente, as pessoas de uma família e em especial, as crianças, podem estar completamente sozinhas.
O bullying exige que pais e educadores assumam seu papel de adultos e responsáveis em colocar limites. Mas somente através da educação das sensibilidades é que a manifestação da agressividade pode ser compreendida, dando para a vítima e agressor da vez, o que cada um precisa para crescer com ética.
A seguir colocamos três vídeos que podem ser de interesse sobre o assunto. O primeiro é uma propaganda irlandesa, uma campanha do governo contra o bullying homofóbico. o segundo é um curta metragem australiano que aborda a relação entre bullying e suicídio. E o terceiro é a entrevista da psiquiatra Ana Beatriz Barbosa concedida à Marília Gabriela sobre o bullying.
O livro "O mundo dos bonecos de Papel", entre muitos aspectos trata da importância do respeito às diferenças.
O bullying continua sendo um tema muito discutido ao redor do mundo porque sua prática, apesar de toda informação disponível, não tem diminuído.
No blog da AME Editorinha teremos uma série de textos, vídeos e atividades para contribuir com educadores que desejam não apenas impedir que o bullying ocorra, mas que principalmente seja estimulado entre as crianças, valores que contraponham os atos de agressão física e emocional.
Neste post a proposta das atividades ( de:Bianca Molica Ganuza) é ajudar as crianças perceberem que somos parte da natureza cuja característica principal é a diversidade.
Para isso o educador poderá escolher como foco de pesquisa a fauna ou a flora.
A pergunta a ser repassada para que as crianças investiguem é: Qual é o melhor animal que existe na natureza? Ou qual é a melhor planta que existe na natureza?
O objetivo é -a partir da pesquisa e através de perguntas - ajudar as crianças a perceberem que não existe o melhor animal ou planta. A onça pode ser rápida e ótima para caçar, mas ela não voa como o tucano. A serpente pode ter um veneno poderoso, mas ela não cava tão bem quanto as minhocas, o macaco pode pular rapidamente de galho em galho, mas ele não se locomove tão bem no escuro como fazem os morcegos. Enfim, as possibilidades são inúmeras de se explorar a importância da diversidade.
Cabe ressaltar que o educador deve se policiar para não inserir um discurso moralista. O foco deve permanecer apenas no quanto é interessante a diversidade na natureza e estimular para que as crianças encontrem qualidades nos bichos e plantas. Do quanto a diversidade da fauna e da flora são fundamentais para manutenção do ecossistema.
Em um segundo momento, propor a atividade de explorar as qualidades, os gostos dos colegas. O educador pode propor que as crianças façam entrevistas em pares ou em pequenos grupos com perguntas específicas: A cor preferida, a comida preferida, o que mais gosta de fazer... As crianças deverão apresentar o que descobriram sobre os colegas.
Novamente o foco do educador é ajudar as crianças a perceberem que as semelhanças são interessantes, mas também as diferenças. Na sequência uma proposta que ajuda bastante é um desenho coletivo, onde cada um, em um mesmo papel grande, faz o seu próprio rostinho. No papel pode estar escrito:
"Somos todos iguais, mas também somos todos diferentes. E isso é muito legal!".
O site herewearetogether.com tem uma proposta bem simples para se fazer um jardim zen com as crianças. O objetivo é estimular uma prática meditativa com as crianças, juntando em uma vasilha um pouco de areia, algumas pedras, uma pequena vela e um pauzinho para a criança fazer formas e desenhos enquanto relaxa.
Acho a ideia incrível, mas pegando o gancho das nossas propostas de atividades para a educação emocional, minha proposta é:
1 - reunir os materiais para fazer o jardim zen com a criança;
2 - separar pedras de diferentes tamanhos e tinta plástica;
3 - contar a história a seguir dos dois amigos;
4 - fazer a proposta de atividade (descrita após a história neste post)
Os dois amigos (autor desconhecido)
A história conta que dois amigos estavam andando pelo deserto. Durante algum ponto da viagem, eles tiveram uma discussão, e um amigo bateu no rosto do outro.
Aquele que foi esbofeteado ficou ferido, mas sem dizer nada, escreveu na areia:
HOJE MEU MELHOR AMIGO me deu um tapa no rosto.
Eles continuaram andando até que encontraram um oásis onde resolveram tomar banho. O que tinha sido esbofeteado ficou preso na lama e começou a se afogar, mas o amigo salvou-o.
Depois que ele se recuperou do quase afogamento, ele escreveu em uma pedra:
HOJE MEU MELHOR AMIGO SALVOU MINHA VIDA.
O amigo que havia esbofeteado e salvo o seu melhor amigo lhe perguntou: "Depois que eu te machuquei, você escreveu na areia e agora, você escreve em uma pedra, por quê?"
O outro amigo respondeu: "Quando alguém nos machuca, devemos escrever na areia, onde os ventos podem apagar. Mas, quando alguém faz algo de bom para nós, devemos gravar isso na pedra onde nenhum vento jamais poderá apagá-lo. "
Proposta de atividade:
Pedir à criança para desenhar na areia algo que ela gostaria que o vento apagasse. Importante permanecer em silêncio e perguntar ao final se a criança gostaria de explicar o que fez. Se ela não quiser, não insistir. Depois disso pedir à criança para colorir as pedras pensando em algo que fizeram de bom para ela, algo que ela não quer esquecer. Da mesma forma perguntar se ela quer contar o que fez e não insistir se ela não quiser. Permita que a criança deixe o jardim zen do jeito que ela achar melhor.
A sugestão inicial desta atividade vem de uma blogueira dos EUA, a Giggles Galore que testou a proposta com as filhas. Adaptaremos um pouquinho para a nossa realidade tupiniquim e de educação emocional. Para começar a Giggles fez um cartaz mais ou menos assim:
MONSTRINHO TAGARELA
O monstrinho tagarela vai te escutar quando você tiver algo a dizer.
Apenas converse com ele ou faça um desenho ou mesmo escreva e coloque o papel dentro da boca do monstro. Conte para ele o que aconteceu no seu dia.
Adaptação: Acredito que a imagem do monstro nos convida a falar de coisas mais assustadoras. Coisas das quais temos medo e as crianças entendem isso muito bem. Minha sugestão é fazer o monstro e deixar que ele fique em cima de uma mesa ou de uma prateleira.
Ao final da semana ou de tempos e tempos, convidar a(s)crianças a desenharem algo que elas tem medo. Depois deixá-las colocar o desenho na boca do monstrinho. O interessante é também pedir para as crianças contarem o que elas desenharam.
Essa atividade pode ser feita com crianças de até 7 anos.
A seguir o PAP da própria Giggles. Repare que ela utilizou caixas de lenço de papel.
Newswise - Ames, Iowa - Novas evidências de pesquisadores do estado de Iowa demonstram uma ligação entre videogames, violência juvenil e delinquência.
Matt DeLisi, professor de sociologia, disse que sua pesquisa mostra uma forte ligação entre jogos violentos e agressividade. Essa influência ocorre mesmo quando há uma história de violência e traços psicopáticos entre delinquentes juvenis.
"Quando os críticos dizem, 'Bem, provavelmente, os jogos de videogame só influenciam os jovens anti-sociais", podemos argumentar isso diretamente, porque conseguimos usar grupos controle para um monte de coisas que sabemos que importa ", disse DeLisi. "Fizemos isso considerando a criança por sexo, idade, raça, a idade em que foram referidos em tribunal de menores - o que é um efeito muito poderoso - e um monte de outros efeitos de mídia, como o tempo que assistem televisão e exposição. Mesmo com tudo isso, a medida videogame ainda importava." Jogos violentos influenciam todas as crianças e jovens, mas logicamente nem todos transformarão essa influência em atos agressivos e criminosos.
Os resultados não foram inesperados, mas algo surpreendentes para Douglas Gentile, professor associado de psicologia, que tem estudado os efeitos da exposição à violência do videogame e agressão a menor, como bater, provocações e xingamentos (bullying).
"Eu não esperava ver muito efeito quando temos um delinquente grave e agressão de nível criminal, porque os jovens que cometem esse nível de agressividade tem um monte de coisas acontecendo de errado para eles. Eles têm muitas vezes uma série de fatores de risco e muito poucos fatores de proteção em suas vidas ", disse Gentile.
O estudo, publicado na edição de abril da revista Violência Juvenil e Justiça Juvenil examinou o nível de exposição de videogames violentos para 227 menores infratores na Pensilvânia. Os jovens mais expostos à jogos violentos foram os que cometeram os atos mais graves de violência se comparados ao ano anterior. A média de infrações dos jovens que jogaram jogos violentos aumentou de um para nove atos graves de violência.
Os resultados mostram que tanto a frequência de jogo e afinidade com jogos violentos foram fortemente associadas com comportamentos delinquentes e violentos. Craig Anderson, professor de psicologia e diretor do Centro para o Estudo da Violência do Estado de Iowa, disse que a exposição ao jogo violento de videogame não é a única causa da violência, mas este estudo mostra que é um fator de risco.
Os pesquisadores afirmam que jovens delinquentes têm vários fatores de risco que influenciam o seu comportamento. O passo seguinte consiste em identificar neste estudo qual é a combinação de fatores mais volátil.
"Ao estudar agressão grave, olhando para múltiplos fatores de risco é mais importante do que olhar para qualquer um", disse Gentile. "A vanguarda da investigação é tentar compreender em que combinação é que os fatores de risco individuais começam influenciando um ao outro de forma a aumentar ou diminuir as chances de agressão."
O que isso significa para os pais?
Há muita desinformação sobre a exposição de videogames, disse Anderson, que torna difícil para os pais compreender os efeitos nocivos. Embora seja uma variável que os pais podem controlar, ele entende que, com mensagens confusas sobre os riscos, alguns pais podem sentir que não vale a pena o esforço de tentar colocar um limite nos hábitos dos filhos.
"Que pai iria passar por todo o esforço do que é preciso para realmente controlar a dieta de seus filhos, se eles realmente não acreditassem que isso faz alguma diferença? É por isso que é tão importante nesse momento passar uma mensagem simples e clara de que a violência importa ", disse Anderson.
Só porque uma criança joga um videogame violento não significa que ele ou ela vai agir violentamente. Mas os pesquisadores dizem que, se houver por parte dos pais, uma consciência do que seus filhos estão jogando e como isso pode influenciar o seu comportamento - as crianças podem ser melhor direcionadas para usar o tempo com jogos ou atividades mais saudáveis.
O que o aumento do consumo da “droga da obediência”, usada para o tratamento do chamado Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade, revela sobre a medicalização da educação?
ELIANE BRUM
Um estudo divulgado na semana passada pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) deveria ter disparado um alarme dentro das casas e das escolas – e aberto um grande debate no país. A pesquisa mostra que, entre 2009 e 2011, o consumo do metilfenidato, medicamento comercializado no Brasil com os nomes Ritalina e Concerta, aumentou 75% entre crianças e adolescentes na faixa dos 6 aos 16 anos. A droga é usada para combater uma patologia controversa chamada de TDAH – Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade. A pesquisa detectou ainda uma variação perturbadora no consumo do remédio: aumenta no segundo semestre do ano e diminui no período das férias escolares. Isso significa que há uma relação direta entre a escola e o uso de uma droga tarja preta, com atuação sobre o sistema nervoso central e criação de dependência física e psíquica. Uma observação: o metilfenidato é conhecido como “a droga da obediência”.
O boletim da Anvisa é uma indicação de que o uso abusivo do metilfenidato pode se tornar um problema de saúde pública no Brasil. A pesquisa é o ponto de partida para vários caminhos de investigação, inclusive jornalística. Por que Porto Alegre é a capital brasileira com maior consumo da droga? Por que o Distrito Federal é, entre as unidades da federação, a que registrou maior uso de metilfenidato? Por que Rondônia, entre os estados do norte, tem um consumo 13 vezes maior que o estado com menor consumo registrado? O que diferencia os médicos brasileiros, concentrados nas regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul, que mais prescrevem o medicamento no Brasil? E por que os três maiores prescritores, dois deles profissionais do Distrito Federal, são os mesmos nos três anos pesquisados? Em 2011, as famílias brasileiras gastaram R$ 28,5 milhões na compra da droga da obediência – R$ 778,75 por cada mil crianças e adolescentes com idade entre 6 e 16 anos. É preciso seguir as pistas e compreender o que está acontecendo.
A TDAH seria um transtorno neurológico do comportamento que atingiria de 8 a 12% das crianças no mundo. No Brasil, os índices são bastante discordantes, alcançando até 26,8% . Os sintomas considerados para o diagnóstico em crianças são: apresentar dificuldade para prestar atenção e passar muito tempo sonhando acordada; parecer não ouvir quando se fala diretamente com ela; distrair-se facilmente ao fazer tarefas ou ao brincar; esquecer as coisas; mover-se constantemente ou ser incapaz de permanecer sentada; falar excessivamente; demonstrar incapacidade de brincar calada; atuar e falar sem pensar; ter dificuldade para esperar sua vez; interromper a conversa de terceiros; demonstrar inquietação.
Um parêntese. A droga tem sido usada por jovens e adultos de todas as idades, na crença de que ela potencializaria a atenção e o rendimento. É difícil quem não conheça alguém que já usou o medicamento para fazer provas na escola ou na universidade, assim como em vestibulares e concursos. O uso é disseminado no ambiente profissional, utilizado por quem quer melhorar seu desempenho ou precisa terminar um trabalho em prazo curto. Também é popular entre aqueles que querem ficar “bombados” para uma balada. Alguns recorrem ao mercado ilegal, outros simulam os sintomas de TDAH nos consultórios médicos para conseguir a receita. Sobre esse tipo de consumo há unanimidade: é totalmente contraindicado.
Entre as considerações finais, os autores da pesquisa da Anvisa, Márcia Gonçalves de Oliveira e Daniel Marques Mota, afirmam:
- Os dados demonstram uma tendência de uso crescente no Brasil. No entanto, a pergunta que precisa ser respondida é se esse uso está sendo feito de forma segura, isto é, somente para as indicações aprovadas no registro do medicamento e para os pacientes corretos, na dosagem e períodos adequados. O uso do medicamento metilfenidato tem sido muito difundido nos últimos anos de forma, inclusive, equivocada, sendo utilizado como “droga da obediência” e como instrumento de melhoria do desempenho seja de crianças, adolescentes ou adultos. Em muitos países, como os Estados Unidos, o metilfenidato tem sido largamente utilizado entre adolescentes para melhorar o desempenho escolar e para moldar as crianças, afinal, é mais fácil modificá-las que ao ambiente. Na verdade, o medicamento deve funcionar como um adjuvante no estabelecimento do equilíbrio comportamental do indivíduo, aliado a outras medidas, como educacionais, sociais e psicológicas. Nesse sentido, recomenda-se proporcionar educação pública para diferentes segmentos da sociedade, sem discursos morais e sem atitudes punitivas, cuja principal finalidade seja a de contribuir com o desenvolvimento e a demonstração de alternativas práticas ao uso de medicamentos.
Além do questionamento proposto pelos autores, outras perguntas podem e devem ser colocadas: existe um doping legalizado das crianças? A escola, em vez de olhar cada aluno a partir da sua história e de sua singularidade, está sendo agente de um processo de homogeneização e silenciamento de crianças e adolescentes considerados “diferentes”? Estaria a droga da obediência sendo usada como uma espécie de “método pedagógico” perverso? O que isso significa? E por que não há uma discussão mais ampla em toda a sociedade brasileira?
A controvérsia sobre a droga da obediência e o chamado Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) é grande. Por uma série de razões, porém, pouco chega à população. É comum ouvir nas ruas, nas escolas e nas festas infantis que alguma criança é “hiperativa”, já que o diagnóstico e a crença de que a suposta doença possa ser resolvida com uma droga se difundiu na sociedade. Para uma parcela significativa das pessoas, soa como uma daquelas verdades “científicas” inquestionáveis.
Na realidade, os questionamentos são muitos. Há quem denuncie que os diagnósticos são mal feitos, levando à prescrição equivocada do medicamento. Há quem defenda que a doença sequer existe – seria uma invenção promovida pelo marketing da indústria farmacêutica. Para colaborar com o acesso ao que poderia ser chamado de “o outro lado do TDAH”, elenquei algumas das principais críticas e ponderações sobre a patologia e o uso da droga, feitas por pesquisadores das áreas da medicina, psicologia, psicanálise e educação. Todos os artigos citados – exceto um, ainda inédito – têm livre acesso e podem ser lidos na íntegra na internet. O foco principal é a relação entre a droga/diagnóstico e a escola, explicitada de forma inequívoca pelo boletim da Anvisa.
A história da medicina é uma história também de como ela deixa de ser o estudo das doenças para passar a definir o que é a normalidade. “A medicina se atribui todo o universo de relações do homem com a natureza e com outro homem, isto é, a vida. Legislando sobre hábitos de alimentação, vestuário, habitação, higiene, aplica a esses campos a mesma abordagem empregada frente às doenças. Adotando (assim) um discurso genérico, aplicável a todas as pessoas, porque neutro”, afirma Maria Aparecida Affonso Moysés, professora titular de Pediatria da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, em um artigo muito interessante, intitulado “A Medicalização na Educação Infantil e no Ensino Fundamental e as Políticas de Formação Docente” (leia aqui). “Com o consentimento da sociedade, que delega à medicina a tarefa de normatizar, legislar e vigiar a vida, estão colocadas as condições históricas para a medicalização da sociedade, aí incluídos comportamento e aprendizagem. (...) É preciso abolir as particularidades, o subjetivo, a imprecisão, para que o pensamento racional e objetivo se imponha. Não se esqueça que o discurso médico, nesse momento – aliás, o discurso científico, em qualquer momento – está afinado com as demandas dos grupos hegemônicos.”
1) A medicina e a definição da “normalidade”
A medicalização, segundo a pediatra, é resultado do processo de conversão de questões sociais e humanas em biológicas – transformando os problemas da vida em doenças ou distúrbios. É neste contexto que teria surgido uma doença que impediria a criança de aprender, com outros nomes antes de ser registrada como TDAH. É assim que se medicaliza a educação, transformando problemas pedagógicos e políticos em questões biológicas e médicas. “O discurso médico irá apregoar a existência de crianças incapazes de aprender, a menos que submetidas a uma intervenção especial – uma intervenção médica”, afirma. E conclui: “A atuação medicalizante da medicina consolida-se ao ser capaz de se infiltrar no pensamento cotidiano, ou, mais precisamente, no conjunto de juízos provisórios e preconceitos que regem a vida cotidiana. E a extensão (e a intensidade) em que esse processo ocorre pode ser apreendida pela incorporação do discurso médico, não importa se científico ou preconceituoso, pela população. A medicina constrói, assim, artificialmente, as ‘doenças do não-aprender-na-escola’ e a consequente demanda por serviços de saúde especializados, ao se afirmar como instituição competente e responsável por sua resolução. A partir deste momento, a medicina se apropriará cada vez mais do objeto aprendizagem. Sem mudanças significativas, apenas estendendo seu campo normativo”.
Em “Os Equívocos da Infância Medicalizada” (leia aqui), Margareth Diniz, professora da Universidade Federal de Ouro Preto, com doutorado em educação,
explicita a diferença entre “medicar” e “medicalizar”: “Medicar pode ser necessário, desde que caso a caso. Já a medicalização é o processo pelo qual o modo de vida dos homens é apropriado pela medicina e que interfere na construção de conceitos, regras de higiene, normas de moral e costumes prescritos – sexuais, alimentares, de habitação – e de comportamentos sociais. Este processo está intimamente articulado à idéia de que não se pode separar o saber – produzido cientificamente em uma estrututa social – de suas propostas de intervenção na sociedade, de suas proposições políticas implícitas. A medicalização tem, como objetivo, a intervenção política no corpo social”.
2) A escola e o ciclo da medicalização da infância
O caminho que leva ao diagnóstico de TDAH e à prescrição da droga da obediência, entre os mais pobres e usuários da rede pública de ensino, inicia na escola, a partir das dificuldades de aprendizagem e/ou insubordinação de determinada criança ou adolescente. Como a família em geral não conseguiria dar uma resposta ao problema, a escola ou encaminha ao médico, ou aciona o conselho tutelar. Entre as crianças mais ricas, clientes do sistema privado de ensino, o ciclo é semelhante, com exceção de que estas não estão vulneráveis à tutela e à vigilância do Estado. Neste caso, a escola encaminha ao psicólogo e este ao neuropediatra – ou diretamente ao neuropediatra, que prescreve o medicamento.
Esta é a análise da psicanalista Michele Kamers, professora do curso de psicologia do Ibes-Sociesc, coordenadora dos cursos de especialização em psicologia hospitalar e da saúde e psicopatologia da infância e da adolescência do Hospital Santa Catarina, de Blumenau, e mestre em educação pela Universidade de São Paulo. No artigo intitulado “A Fabricação da Loucura na Infância: Psiquiatrização do Discurso e Medicalização da Infância”, ainda inédito, ela afirma que a escola se converteu em um mecanismo de inclusão da criança no campo do saber médico-psiquiátrico. “As escolas, as unidades de saúde e as clínicas privadas agenciam e legitimam a intervenção médica e farmacológica sobre a criança, fazendo com que a medicalização venha se convertendo na principal forma de tratamento utilizada para responder às demandas sociais realizadas pelas instituições de assistência à infância”, diz. “A medicina, juntamente com a assistência psicológica, social e pedagógica, forma uma rede de tutela e encaminhamentos múltiplos. A partir do momento em que a criança e sua família são capturadas, não conseguem mais sair.”
É corriqueiro, segundo Margareth Diniz, receber pais em busca de tratamento para seus filhos por exigência da escola. “Todos nós que nos ocupamos da clínica também estamos habituados com solicitações de tratamento de crianças a partir de uma exigência da escola em relação à sua inadaptação, ou inadequação às regras mais elementares de seu aprendizado e de sua socialização. Normalmente são os pais, mais especificamente as mães, que nos formulam esse pedido. O que torna esses pedidos curiosos é que, invariavelmente, trazem consigo um enunciado pedagógico nos seguintes termos: ‘A escola chegou à conclusão que esta criança necessita de um acompanhamento’”.
A psicóloga Renata Guarido, que defendeu uma tese de mestrado na Universidade de São Paulo intitulada “O Que Não Tem Remédio, Remediado Está: a Medicalização da Vida e Algumas Implicações do Saber Médico na Educação”, mostra como a criança passou de objeto da pedagogia a objeto da medicina. Renata afirma que a medicina passou a determinar quem era “educável ou ineducável” (leia aqui): “Vemos as crianças e suas famílias submetidas ao poder exercido pela constituição de um domínio do saber médico-psicológico, sem que o contexto de seus sofrimentos, bem como sua possibilidade de tratamento, sejam orientados para outras formas de consideração da subjetividade, que não a normalizante e de ‘treinamento’”.
Em sua análise, Renata reforça como são corriqueiras hoje nas escolas as cenas em que professores e coordenadores dão o diagnóstico de TDAH diante de determinados comportamentos das crianças e adolescentes, encaminhando-os para avaliação psiquiátrica, neurológica e psicológica. Também já faz parte da rotina professores e outros agentes escolares perguntarem aos pais de um aluno em tratamento se ele foi corretamente medicado naquele dia. “Tais procedimentos nos permitem entrever que estão crentes de que a variação no uso do remédio é responsável pela variação dos comportamentos e estados psíquicos das crianças, e que esta não teria nenhuma relação com variações, mudanças ou experiências no interior do cotidiano escolar. (...) Ao assumir e validar o discurso médico-psicológico, a pedagogia não deixa de fazer a manutenção dessa mesma prática, desresponsabilizando a escola e culpabilizando as crianças e suas famílias por seus fracassos”.
3) A criança como objeto, não mais como sujeito
Entre as principais críticas feitas por aqueles que alertam para o processo de medicalização da infância – e especificamente sobre o TDAH e a droga da obediência – está a constatação de que as crianças deixam de ser escutadas na sua singularidade, como um protagonista que tem uma história e está inserido num contexto familiar e social, para se tornar um objeto com uma falha no corpo, sujeito à intervenção e à correção por medicamentos. Assim, as crianças e adolescentes têm sido calados naquilo que estão tentando dizer a pais e professores, em nome de um ideal de “normalidade” determinado pelo olhar médico e legitimado e reproduzido pela escola – e também pelos dispositivos de vigilância do Estado. O que se cala são os conflitos – que deveriam ser os propulsores do ato de educar.
Em O Livro Negro da Psicopatologia Contemporânea (Via Lettera, 2011), o psicanalista Alfredo Jerusalinsky escreve um capítulo intitulado “Gotinhas e comprimidos para crianças sem história – uma psicopatologia pós-moderna para a infância”. Ele afirma: “Não se questiona o que quer dizer este ponto, esta palavra ou este gesto fora do lugar. (...) Na trajetória que estamos descrevendo, foi se apagando esse esforço por ver e escutar um sujeito, com todas as dificuldades que ele tivesse, no que tivesse para dizer, e foi-se substituindo o dado ordenado segundo uma nosografia (descrição das doenças) que apaga o sujeito. (...) É assim que os problemas deixam de ser problemas para serem transtorno. É uma transformação epistemológica importante, e não uma mera transformação terminológica. Um problema é algo para ser decifrado, interpretado, resolvido; um transtorno é algo a ser eliminado, suprimido porque molesta. Os nomes das categorias não são inocentes”. Escrevi sobre este livro na coluna “Os Robôs Não Nos Invejam Mais”, que pode ser lida aqui.
Em artigo já citado, Renata Guarido mostra que não é calada apenas a voz dessas crianças e adolescentes classificados como fora do padrão de uma pretensa normalidade. Mas até mesmo o seu nome é apagado. “Não é incomum observar, nas unidades de saúde ou mesmo nas escolas, que o nome do paciente ou do aluno seja substituído por sua classificação diagnóstica – estranha nomeação dos indivíduos que põe em relevo o lugar que ocupam na escala normal”, diz Renata. “A medicalização em larga escala das crianças nos tempos atuais pode ser lida também como apelo ao silêncio dos conflitos, negando-os como inerentes à subjetividade e ao encontro humano. Que o discurso pedagógico contribua para a manutenção desse tipo de recurso deve ser objeto constante de crítica em direção à possibilidade de que o lugar do ato educativo seja redefinido.”
Em “Hiperatividade: o ‘Não Decidido’ da Estrutura ou o ‘Infantil’ ainda no Tempo da Infância”, as psicanalistas Viviane Neves Legnani, professora da Universidade de Brasília (UnB), e Sandra Francesca Conte de Almeida, professora da Universidade Católica de Brasília, refletem sobre a TDAH a partir da descrição de um caso concreto (leia aqui). Elas afirmam : “Nossa experiência com escolas permitiu observar que muitos professores se servem dos indicadores descritivos que acompanham o diagnóstico de TDAH para sustentar uma prática pedagógica ‘didaticamente planejada’ para lidar ‘com os difíceis alunos portadores de hiperatividade’. O preço deste planejamento, no entanto, nem sempre é considerado: a impossibilidade de a criança encontrar o seu lugar na escola, a partir de sua singularidade. Como consequência da padronização pedagógica, ‘cientificamente’ estruturada, tem-se que o educador não escuta e não legitima a palavra dita pela criança, já que esta é vista como ‘doente’ e, portanto, incapaz”.
4) Ninguém se responsabiliza – ou por que a medicalização prospera
Não é apenas a escola que se desresponsabiliza, quando aquilo que pertence ao humano é tratado como patologia, mas também a criança e o adolescente, na tarefa de criar uma vida. Ao serem classificados como doentes ou portadores de um transtorno, e ao introjetarem este ser/estar no mundo como doentes ou portadores de um transtorno, é o diagnóstico que lhes determina o destino. Na hipótese de realizar qualquer conquista, ela é computada na conta da droga. Em “O Sujeito Refém do Orgânico” (leia aqui), Renata Guarido afirma: “Crianças e adultos, sendo desresponsabilizados de sua implicação com aquilo que lhes acontece, tornam-se também impotentes para atuarem sobre seus sofrimentos e aprendizados. E a impotência é então mais um efeito deste discurso biológico. Só é visto como potente o especialista que saberia o que fazer diante do diagnóstico que profere. Sendo o aprendizado descrito como efeito do funcionamento cerebral, da estimulação correta deste órgão que nos governa, temos sua descrição reduzida a uma dimensão privada, que ocorre no interior do indivíduo e não a partir do laço entre dois ou mais sujeitos. Ou seja, o aprendizado perde o caráter de ser fruto da ação humana, dimensão do encontro na pluralidade própria do mundo público, onde produzimos história”.
Margareth Diniz analisa por que a aceitação desse discurso ecoa na sociedade e é por ela reproduzido: “A criança e o adolescente esperam do outro que lhe responda algo acerca do enigma de sua existência, e os outros esperam das crianças que se conduzam na vida de modo a responder aos seus ideais. A fim de salvar os pais de tamanha angústia diante do não saber, surgem as tentativas de tornar científicas as respostas a estas questões, na busca de aplacar o mal-estar. A ciência começa a forjar um saber que não pertence nem ao pai, nem a mãe. Estes são levados a interferirem cada vez menos na educação dos filhos. Entra em cena a figura dos especialistas, autorizados principalmente pelo discurso da mãe, que demonstra um verdadeiro fascínio pela promessa de um saber total, sem furos”.
Não são apenas os professores, mas também os pais que passaram a exigir diagnóstico e medicamento para calar os conflitos na escola e dentro de casa. Afinal, é muito mais fácil lidar com uma “doença”, quase uma fatalidade, que diz respeito apenas ao funcionamento de um corpo e para a qual existiria uma pílula milagrosa, do que escutar o que uma criança ou um adolescente está dizendo com seu comportamento. “Os pais acusam as escolas de rotular suas crianças de hiperativas indiscriminadamente, antes mesmo de obter um diagnóstico médico, mas há relatos de que também alguns pais impacientes andam utilizando o diagnóstico de hiperatividade como desculpa para entupir seus filhos de remédio e mantê-los ‘sossegados’, daí que o medicamento tenha sido batizado por ‘droga da obediência’”, afirma Margareth. “Isso os desculpabiliza por não estarem dando conta de impor limites aos filhos, por exemplo, em relação à hora de dormir ou de desligar seus computadores e jogos eletrônicos.”
5) O marketing da indústria farmacêutica
O transtorno de hiperatividade pode ser um daqueles casos em que a droga ajuda a moldar o diagnóstico. Críticos da medicalização afirmam que não é comprovada a existência de uma doença que só altere o comportamento e a aprendizagem. Neste sentido, a disseminação do diagnóstico de TDAH inverteria a lógica da medicina, na qual seria preciso primeiro comprovar a doença e depois tratá-la. O fenômeno obedeceria mais à lógica do mercado do que a da saúde – com a relação próxima e, em alguns casos, promíscua, entre laboratórios e médicos. “A ligeireza (e imprecisão) com que as pessoas são transformadas em anormais é diretamente proporcional à velocidade com que a psicofarmacologia e a psiquiatria contemporânea expandiram seu mercado. Não deixa de ser surpreendente que o que foi apresentado como avanço na capacidade de curar tenha levado a ampliar em uma progressão geométrica a quantidade de doentes mentais”, alertam Alfredo Jerusalinski e Silvia Fendrik em O Livro Negro da Psicopatologia Moderna.
“A produção de saber sobre o sofrimento psíquico encontra-se associada à produção da indústria farmacêutica de remédios que prometem aliviar os sofrimentos existenciais. O consumo em larga escala dos medicamentos e o crescimento exponencial da indústria farmacêutica tornam-se elementos indissociáveis do exercício do poder médico apoiado em um saber consolidado ao longo do século XX”, analisa Renata Guarido. “Se a psiquiatria clássica, de forma geral, esteve às voltas com fenômenos psíquicos não codificáveis em termos do funcionamento orgânico, guardando espaço à dimensão enigmática da subjetividade, a psiquiatria contemporânea promove uma naturalização do fenômeno humano e uma subordinação do sujeito à bioquímica cerebral, somente regulável por uso de remédios. Há aí uma inversão não pouco assustadora, pois na lógica atual de construção diagnóstica, o remédio participa da nomeação do transtorno. Visto que não há mais uma etiologia (estudo das causas da doença) e uma historicidade a serem consideradas, pois a verdade do sintoma/transtorno está no funcionamento bioquímico, e os efeitos da medicação dão validade a um ou outro diagnóstico.”
*******************
Estes cinco pontos são apenas algumas pistas para compreender o crescimento do Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade entre as crianças e adolescentes e a disseminação da droga da obediência. Dito de outro jeito, questionar o aumento dos “anormais” nas escolas brasileiras. Ou dos “desobedientes”. A falta de espanto de pais e professores diante do fenômeno mostra como a medicalização está naturalizada na sociedade brasileira. Afinal, parte destes pais e professores também fazem, no seu próprio cotidiano, o uso de drogas legais para silenciar suas dores humanas. Por que acreditariam que com seus filhos e alunos seria diferente? Drogar-se, legalmente, é uma marca da nossa época.
Ninguém sabe quais serão os efeitos a longo prazo do uso contínuo do metilfenidato sobre o cérebro em formação das crianças. O que acontecerá no futuro com essa geração legalmente drogada ainda é uma incógnita. Pelo menos, valeria a pena pensarmos no presente: por que estamos dopando crianças e adolescentes em vez de tentar escutá-los e entendê-los em sua singularidade? E o que isso diz sobre nós, os adultos?
(Nota do Blog da AME Editorinha: Será que o stress é a única explicação para os dados revelados? O que você pensa sobre isso?)
Especialistas em saúde infantil chamam a atenção para uma epidemia silenciosa que afeta a saúde mental das crianças que, ainda pequenas, precisam lidar com as pressões da sociedade moderna
Natalia Cuminale
Segundo especialias, as crianças estão ansiosas, estressadas, deprimidas e sobrecarregadas (ThinkStock)
Uma em cada onze crianças com mais de oito anos de idade está infeliz, segundo um estudo divulgado em janeiro deste ano pela Children’s Society, organização centenária de proteção infantil. Apesar de a pesquisa trazer à tona uma realidade das crianças entre 8 e 16 anos do Reino Unido, especialistas brasileiros em saúde infantil afirmam que esse não é um problema exclusivo das crianças britânicas. No Brasil, a realidade é parecida. Ana Maria Escobar, pediatra do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas, em São Paulo, conduziu uma pesquisa com os pais de cerca de 900 crianças de 5 a 9 anos que estudavam em escolas particulares e estaduais.
De acordo com os resultados do estudo, os pais disseram que 22,7% das crianças apresentavam ansiedade; 25,9% tinham problemas de atenção e 21,7% problemas de comportamento. "No início do estudo, esperava encontrar queixas como asma, mas não ansiedade", diz Ana. Apenas 8% tinham problemas respiratórios e 6,9% eram portadoras de asma. O estudo foi concluído em 2005, mas Ana Maria acredita que se a pesquisa fosse feita hoje, "os níveis de ansiedade e de problemas de comportamento certamente seriam ainda mais altos."
Mais do que infelizes, as crianças brasileiras também estão ansiosas, estressadas, deprimidas e sobrecarregadas. "Elas estão desconfortáveis com a infância. Esse desconforto aparece de várias formas: como irritabilidade, desatenção, tristeza e falta de ânimo. Muitas vezes, é um comportamento incomum em relação à idade delas", diz Ivete Gattás, coordenadora da Unidade de Psiquiatria da Infância e Adolescência da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
Saul Cypel, membro do departamento de Pediatria do Comportamento e Desenvolvimento da Sociedade Brasileira de Pediatria, traz dados preocupantes: "A impressão que eu tenho é a de que o número de crianças com queixas comportamentais cresceu muito nesses últimos dez anos." Neste período, segundo Cypel, houve uma transformação do perfil da clínica: se antes as queixas sobre o comportamento infantil correspondiam a 20% dos pacientes, agora são responsáveis por 85% do total de seu consultório de neurologia.
Com uma agenda recheada de atividades extracurriculares, que vão desde aulas de idiomas como inglês e mandarim até as aulas clássicas como balé e futebol, as crianças estão sem tempo para se divertir e descansar, acreditam os médicos. Segundo Cypel, a antecipação de atividades para as quais o indivíduo não está preparado pode desencadear o stress tóxico, que ocorre quando há uma estimulação constante do sistema de resposta ao stress (veja quadro abaixo), trazendo prejuízos futuros para as crianças.
"A família introduz uma série de treinamentos, atividades e línguas novas. Na medida em que a criança não consegue dar conta disso, a sensação de fracasso se torna frequente", explica Cypel. "Com o stress tóxico, ao invés de favorecer o desenvolvimento da criança, os pais acabam limitando-a e desmotivando-a." Entre as consequências diretas estão a diminuição da autoestima, alterações alimentares (excesso ou falta de apetite), problemas de sono e apatia.
No início deste ano, a Academia Americana de Pediatria lançou um documento que chama a atenção para as evidências de impactos negativos do stress tóxico, com prejuízos posteriores para a aprendizagem, comportamento, desenvolvimento físico e mental. O relatório também sugere que parte dos problemas mentais que ocorrem nos adultos devem ser vistas como transtornos de desenvolvimento que tiveram início na infância.
Ana Maria Escobar acrescenta que a exposição à realidade violenta do Brasil também pode contribuir para uma sensação de ansiedade nas crianças. "Antes, raramente uma criança ouvia falar de um ato de violência. Hoje, elas ficam mais confinadas e têm medo de assaltos e sequestros. Isso com certeza provoca maior stress e ansiedade, além de maior possibilidade de se sentir infeliz, principalmente entre aquelas que vivem nas grandes cidades brasileiras", diz..
Sinais — O problema é agravado pelo fato de que muitos pais demoram a perceber o que se passa com seus filhos. "Eles acham que o comportamento das crianças é normal", diz Ana Maria Escobar. Além disso, a dificuldade em administrar o tempo que dedicam à vida profissional e aos filhos muitas vezes impede que os pais percebam os sinais de que algo está errado.
"Muitos pais priorizam a profissão e terceirizam a criação dos filhos. Mas é preciso se questionar: quanto tempo eu passo com meus filhos? Quem são as pessoas que estão criando eles?", afirma o psiquiatra Francisco Assumpção, da Sociedade Brasileira de Psiquiatria.
Essa é uma preocupação constante na vida da publicitária Flora*, que tem dois filhos, Cecília* e Celso*, de 7 e 9 anos, respectivamente. As crianças, que estudam em período integral na escola, têm uma rotina bastante atribulada. Celso faz aula de inglês, futebol, tênis e deve começar a aprender uma luta neste ano. Cecília também faz inglês, natação e deve começar a praticar ginástica olímpica. "Primeiro, experimentamos uma aula de inglês uma vez por semana, depois colocamos os dois em um esporte", afirma. "Tem que sentir muito como a criança está lidando com isso. Observar o comportamento para ver se ela está cansada e se o rendimento na escola começa a diminuir", diz. Flora se preocupou em contratar uma professora de inglês para que as crianças tivessem aulas em casa. Para ela, é melhor opção para evitar o stress desnecessário no trânsito.
Apesar da preocupação, Flora fez alterações na rotina de Cecília. A pequena começou a apresentar sinais de stress. Para descobrir o problema, Flora foi investigar com a filha e percebeu que a natação estava causando o problema. "Ela chorava muito e quando acordava dizia que não queria ir para a escola. Estava diferente do que ela é normalmente", disse. Flora tirou a filha da natação no ano passado, mas ela já pediu para voltar esse ano, segundo a mãe, que vai observar o desempenho da criança.
Quando é depressão – De acordo com Ivete Gattás, da Unifesp, a depressão afeta 2% das crianças e até 5% dos adolescentes. Sabe-se ainda que a depressão na infância e na adolescência pode influenciar negativamente o desenvolvimento e o desempenho escolar, além de aumentar o risco de abuso de substâncias químicas e de suicídio.
Somente 50% dos adolescentes com depressão recebem o diagnóstico antes de se tornarem adultos. Gattás explica que o transtorno depressivo pode surgir a partir de vários fatores: predisposição genética e associação de fatores ambientais, que podem ser desencadeados pelo stress do dia a dia, sensação de vulnerabilidade, restrição ao desempenho da criança e sobrecarrega de atividades. (Veja a lista de sintomas). "Para caracterizar depressão, a criança deve apresentar mais de cinco sintomas, durante um mês", afirma Gattás.
Terapia — Estudos já mostraram que a ansiedade durante a infância, se não contornada, pode se transformar em depressão durante a vida adulta. Por isso é necessário prevenir qualquer sintoma, mesmo que ele não seja o suficiente para o diagnóstico da depressão. (Veja como evitar o stress infantil.)
Carla*, de oito anos, começou a ter problemas aos cinco. Em seus desenhos, ela sempre aparecia chorando, enquanto suas amigas sorriam. “Ela é muito preocupada com a imagem que os outros têm dela. Se ela percebe que não corresponde ao que os outros esperam, ela se chateia muito”, diz a arquiteta Patrícia*, mãe de Carla.
“Tentamos conversar com ela, mas ela não revelava o que estava acontecendo. Descobri que as crianças na escola faziam um clubinho e que a Carla era sempre excluída”, diz Patrícia. O problema foi solucionado com a troca de sala. A pediatra de Carla indicou um especialista em saúde mental, para prevenir e ajudar a garota a entender a própria ansiedade. Há três anos, ela faz análise uma vez por semana. “Às vezes, ela me pergunta o que eu acho sobre determinado assunto e eu fico em dúvida sobre o que responder. E ela diz: ‘já sei, vou levar isso pra analista’”, conta a mãe.
Para Gattás, o pediatra deve ser treinado na área de saúde mental para diagnosticar problemas da infância e adolescência. “Ele acompanha a criança durante o crescimento e tem uma importância fundamental na orientação dos pais”, diz. “Se não houver uma mudança na forma como os pais lidam com seus filhos, vamos ver um aumento da frequência dos quadros psiquiátricos, mas transtornos de ansiedade e falta de perspectivas para as novas gerações”, diz Assumpção.
*Os nomes das mães e das crianças utilizados nesta reportagem foram trocados com o objetivo de preservar a privacidade dos personagens
As 'mães tigres' estão certas?
Com criação autoritária, crianças orientais não têm a oportunidade de errar
As filhas de Amy Chua, professora de Direito da Universidade de Yale e descendente de chineses, não podem dormir na casa das amigas ou ter um namorado. Elas também estão proibidas de assistir televisão ou de jogar videogame e sabem que vão receber castigos pesados se tirarem uma nota menor que 10 — a mãe abre uma generosa exceção para ginástica e atuação. Foi isso que escreveu Amy em um controverso artigo intitulado Por que as Mães Chinesas São Superiores publicado no início do ano passado na edição online do Wall Street Journal.
Amy é conhecida como o que se convencionou chamar de 'mães tigres', defensoras de um modelo de criação autoritário e punitivo. Depois do lançamento do livroGrito de Guerra da Mãe Tigre (Editora Intrinseca, tradução de Adalgisa Campos da Silva, 240 páginas, R$ 29,90), Amy participou de programas de TV nos Estados Unidos e foi capa da revista Time, onde defendeu seu modo de criar os filhos.
No livro, ela mostra que o perfeccionismo é regra. Incentivar resultados medíocres e se preocupar com a autoestima dos filhos são comportamentos totalmente fora do padrão de criação linha dura que ela considera ideal. Ela não hesita em chamar sua filha mais velha de "lixo". Amy obriga suas filhas a aprender piano ou violino. Certa vez, ela forçou a filha mais nova, de sete anos, a tocar piano sem intervalos para tomar água ou ir ao banheiro até que ela aprendesse a tocar determinada música.
A crença de que é preciso exigir muito para atingir o máximo do potencial costuma ser mais comum em culturas orientais, mas também pode acontecer entre jamaicanos, irlandeses ou americanos, segundo Amy. A única exigência para se encaixar no perfil de mãe tigre é ser exigente.
Pesquisas já mostraram que estudantes asiáticos que cursam o ensino médio passam mais tempo estudando e fazendo lições de casa do que os jovens de outras culturas. Toda essa cobrança, no entanto, pode apresentar resultados trágicos.A China está entre os dez países com as maiores taxas de suicídio do mundo, com 22 mortes por 100.000 pessoas. Lá, uma pessoa tenta tirar a própria vida a cada dois minutos, segundo dados do governo chinês.
Desiree Baolian Qin, que também é chinesa e professora do Departamento de Estudos do Desenvolvimento Humano e Familiar, da Universidade Estadual do Michigan, realizou um estudo mostrando que as crianças chinesas também precisam ser felizes. A pesquisa, publicada em janeiro deste ano no Journal of Adolescence, foi realizada com 487 estudantes.
Os resultados mostraram que os chineses tinham mais problemas com os pais com assuntos relacionados aos estudos do que os outros. Além disso, os estudantes chineses eram mais depressivos, ansiosos e apresentaram maior taxa de baixa autoestima do que os estudantes ocidentais. Bom para os estudos, o modelo autoritário não é benéfico para a saúde mental das crianças.