Mesmo a menor dose de poder pode mudar uma pessoa . Você provavelmente já viu isso. Alguém recebe uma promoção ou um pouco de fama e , de repente, ele se torna um pouco menos amigável com as pessoas abaixo dele.
Então aqui está uma pergunta que pode parecer muito simples : Por quê?
Para Sukhvinder Obhi , neurocientista da Wilfrid Laurier University , em Ontário , no Canadá, a explicação é porque o poder muda fundamentalmente a forma como o cérebro funciona .
Obhi e seus colegas, Jeremy Hogeveen e Michael Inzlicht , têm um novo estudo mostrando evidências para apoiar essa afirmação, demonstrando que quanto mais poderosa uma pessoa se sente, menor é a resposta de seu sistema de espelho no cérebro, ou seja, menor a sua capacidade de sentir empatia.
Outro pesquisador que tem estudado a relação entre poder e empatia é Dachner Keltner.
" O que estamos descobrindo é que o poder diminui todas as variedades de empatia ", diz Keltner , psicólogo social da Universidade da Califórnia, em Berkeley. Ele diz que estes resultados se encaixam em uma tendência nas pesquisas psicológicas que tem estudado a empatia.
" Se você está com uma equipe no trabalho [ ou ] no seu jantar em família, sempre podemos adaptar os nossos comportamentos com os comportamentos de outras pessoas", diz ele. " E o poder dá uma mordida nessa capacidade, nos tornando menos hábeis em perceber os outros, o que é muito ruim. "
A boa notícia, diz Keltner , que um campo emergente de pesquisas sugerem que pessoas em situações ou posições de poder podem ser treinadas de volta ao seu eu compassivo.
E você já experimentou alguma dose de poder? E como você se saiu?
As discussões em torno da redução da maioridade penal no Brasil é o assunto da vez na mídia. Aliás, assunto importantíssimo e que merece reflexões e ações mais maduras e sistêmicas.
Por um lado temos os defensores da redução da maioridade penal para 16 anos ao invés de 18 anos. Vejamos alguns argumentos das pessoas favoráveis à redução da maioridade penal:
- os crimes cometidos pelos menores são crimes hediondos, ou seja, crimes que merecem maior reprovação por parte do Estado;
- os jovens impunes estão se tornando mais violentos;
- não importa a idade, um crime deve ser julgado e a pessoa condenada por sua ação;
- as famílias vítimas das ações criminosas desses jovens são ainda mais lesadas em função da impunidade;
- um jovem de 16 anos que se envolveu no crime não tem mais chance de recuperação;
Vejamos agora alguns argumentos das pessoas desfavoráveis à redução da maioridade penal:
- a redução é uma violação ao Estatuto da Criança e do Adolescente;
- um jovem deve ser tratado conforme a sua idade e de forma que possa ser protegido e amparado;
- A redução da maioridade penal não é garantia da redução dos índices de violência;
Importante nos esforçarmos para aprofundar nossa compreensão dos mais diversos fatos envolvidos e não corrermos o risco de tirar conclusões reducionistas. È um fato os jovens brasileiros estarem cada vez mais envolvidos com crimes graves e violência. Mas também é um fato que a redução da maioridade penal não trará os resultados desejados. Segundo a opinião do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo em entrevista ao jornal O Estado de São Paulo, ele diz: "Tenho uma posição consolidada há muitos anos: sou contra a redução da maioridade penal. Diante da situação carcerária que temos no Brasil, a redução da maioridade penal só vai agravar o problema", uma vez que "nossos presídios são verdadeiras escolas de criminalidade". Ele exemplifica: "Muitas vezes, pessoas entram nos presídios por terem cometido delitos de pequeno potencial ofensivo e, pelas condições carcerárias, acabam ingressando em grandes organizações criminosas. Porque, para sobreviver, é preciso entrar no crime organizado". Cardozo ressalta ainda que a inimputabilidade penal até os 18 anos de idade "é um direito consagrado e uma cláusula pétrea da Constituição do Brasil", que não pode ser alterada "nem mesmo" por uma emenda.
Aliás, quais seriam mesmo os resultados desejados com a redução da maioridade penal no Brasil? O que esperamos dos nossos jovens brasileiros? Será que o foco é na redução da violência ou também estamos preocupados com a juventude brasileira?
Chegou a hora de revermos muitas coisas. Ser professor hoje no Brasil é ter uma profissão de risco. Ser jogador de futebol é sinônimo de fama e fortuna. E ser político hoje no Brasil é sinônimo do quê? Vivemos o resultado de muitas coisas que se somam e misturam. Mas qual será a mensagem que os jovens recebem através da cultura, dos valores, da forma como são tratados, do que parece valer a pena e ser importante hoje em dia?
Será que não é possível ser feito algo mais profundo e transformador diante dessa realidade?
A educação emocional, sem dúvida é uma chave importantíssima nesse momento onde tantas coisas parecem ruir. Somente através de um povo mais maduro emocionalmente é que seremos capazes de lidar com os problemas de uma forma mais inteligente, de uma forma mais integral. E veja que o uso da expressão educação emocional é intencional, já que a inteligência espiritual tem nas emoções uma de suas asas.
Educação emocional exige ação, exercício, experimentação, elaboração, transformação e por isso necessita de pessoas que ajudem nessa tarefa.
Este texto não tem por objetivo esgotar o assunto ou mesmo dar soluções simplistas. Mas a Educação Emocional é uma das nossas grandes bandeiras, uma missão importante da Ame Editorinha e não é por acaso. A seguir, uma matéria que saiu no jornal O Globo, onde podemos ver que as melhores soluções podem não ser tão óbvias...
Escola troca seguranças por professores de
artes e melhora desempenho de alunos
Aclamado mundo afora, violoncelista Yo-Yo Ma visita Orchard Gardens e toca com alunos Foto: Patrick D. Rosso / Boston.com
O GLOBO
RIO - Cercado por crianças indisciplinadas e pelo aumento de violência dentro das salas de aula, o diretor de uma escola pública de ensino médio da cidade de Boston, nos Estados Unidos, tomou uma medida que, à primeira vista, pareceu loucura: ele demitiu todos os funcionários da segurança e, com o dinheiro, reinvestiu contratando professores de arte.
Em menos de três anos, o colégio Orchard Gardens, que figurava entre os cinco piores do estado Massachusetts, tornou-se uma das unidades onde houve maior salto de qualidade no aprendizado de alunos. O segredo?
- Não há um único jeito de se fazer uma tarefa. E a arte te ajuda a compreender isso. Se você levar isso a sério, o mesmo acontecerá na parte acadêmica e em outras áreas. Eles precisam mais do que um teste preparatório e mais do que simplesmente responder de um jeito uma questão – disse à rede de TV NBC o diretor Andrew Bott, o sexto a gerir a unidade em menos de sete anos.
Ao assumir a direção da Orchard Gardens em 2010, Bott chegou a ouvir de seus colegas que a escola era conhecida como a “matadora de carreiras” dentro da rede estadual de Massachusetts.
Construída em 2003 para ser uma referência no mundo das artes, a Orchard Gardens nunca alcançou esse objetivo. O estúdio de dança era usado como depósito, e instrumentos de orquestra estavam praticamente intactos. A violência chegou a tal ponto que alunos foram proibidos de levar mochilas. Tudo para se reduzir a incidência de armas em sala de aula. Cerca de 56% dos mais de 800 alunos da escola são descendentes de latinos, e outros 42% são considerados negros.
Mas com a substituição de seguranças por professores de arte, as paredes dos corredores viraram muros de exposição, os entulhos no estúdio deram espaço às aulas de dança e a orquestra voltou a tocar. De acordo com Bott, o contato com as artes deixou os alunos mais motivados e com maior espírito de empreendedorismo.
Um dos alunos, Keyvaughn Little, conseguiu ser aceito na disputada Academia de Artes de Boston, única escola pública do estado especializada em artes visuais e de performance.
- Todas as aulas extra-classe e a maior atenção que recebemos nos faz pensar ‘eu realmente posso ter um futuro nisso e não preciso ir para uma escola regular. Posso ir para uma escola de artes – afirmou Keyvaughn à NBC.
matéria publicada na revista Emília - em setembro de 2011
Buscando critérios para a escolha de livros
POR YOLANDA REYES
Yolanda
Reyes nasceu na Colômbia, é educadora, fundadora e diretora do Instituto Espantapájaros, em Bogotá – um projeto cultural de formação de leitores, dirigido não apenas as crianças,mas também a
mediadores e adultos. Especialista em fomento à leitura, consultora, autora de artigos e livros sobre o tema da leitura, é autora de Acasa imaginária: leitura e literatura na primeira infância (Global, 2010). É colunista do diário El Tiempo, de Bogotá
e também
se destaca pela sua obra literária para crianças e jovens. Dentre seus livros publicados no Brasil, destacamos É
terminantemente proibido, A
pior hora do dia, Saber
perder e Terça-feira:
5ª aula (FTD) e Um
conto que não é reconto
(Mercuryo Jovem).
Como escolher boa literatura para crianças? Essa é a
pergunta mais frequente que os pais me fazem e não gosto de respondê-la em abstrato,pois
se cada criança é diferente, os pais também são, e cada pessoa tem seus gostos, suas perguntas, suas maneiras de ler... Isso sem falar nas idades, porque temos
incluídos nesse rótulo que os adultos denominam, genericamente,
"crianças", desde os bebês até os adolescentes.
Mas essas
também são categorias abstratas, porque um bebê pode gostar dos animais, enquanto outro pode
preferir flores, e uma menina de dez anos pode odiar poemas, que outra criança
adora.
O
mesmo ocorre com os romances de aventura, ou os que falam da vida real. O mesmo
com os monstros e com as fadas. Alguns gostam de contos, outros, de histórias
em quadrinhos. Alguns querem
muitas ilustrações, outros, letras pequenas. E isso sem falar dos momentos,
porque há livros
para ler à noite e outros para ler durante o dia. Há livros para chorar e
outros para rir.
Alguns
são perfeitos para responder àquela pergunta que não sai da nossa cabeça, enquanto outros nos
deixam um monte de novas perguntas. Às vezes, precisamos de uma resposta e, às
vezes, precisamos de mais perguntas.
E por aí
vai...
Então, não
existe resposta?
Na verdade,
não existe receita.
Ou talvez
pudesse haver uma: para uma criança ler, só precisa saber ler.
Ler como?
Ler o quê?
1. Ler
para as crianças
Quem são e
do que eles gostam. O que eles nos dizem todos os dias – e o mais importante: o
que eles
não nos dizem. O que os faz perder o sono e o que os faz sonhar. De que brincam
e com que brincam, com que se divertem, o que os faz chorar. O que sentem com
os livros que vêm em casa, na biblioteca,
na livraria, ou na sala de aula. Quais eles preferem. Eles podem ser totalmente distintos
mesmo sendo gêmeos ou sentados numa mesma carteira. Nenhum especialista sabe o que
você sabe sobre essa criança concreta que espera aquele livro em particular, em
um momento preciso de sua vida. Confie na sua sabedoria instintiva. Seus
próprios filhos são o seu primeiro texto
de
leitura.
2. Ler o
livro, panoramicamente
Como você lê
o descritivo das vitaminas numa caixa de cereal? Usando seus critérios. Você
não compra a
caixa de cereais apenas porque é mais colorida ou se tiver um personagem de
Walt Disney. Tampouco compra um disco sem olhar a capa e as músicas que ele
contém e, muitas vezes,
inclusive,
pede para ouvir.
Isso que é
feito na loja de discos, ou na livraria antes de comprar um livro, para você, deve ser feito quando se trata dos livros para as crianças. Não compre o
primeiro que lhe oferecem. Antes de olhar
se tem capa dura ou adesivos, pergunte ao livro:
a) Quem assina?
Você não
compra um livro anônimo, a menos que seja a Canção do Mio Cid. Nem é a mesma coisa comprar
um romance de Saramago ou de um "escritor fantasma". O mercado está
cheio de livros infantis assinados por multinacionais. Como em qualquer
literatura, um verdadeiro escritor de livros para
crianças garante o que escreve com a sua assinatura.
b) Quem é o ilustrador?
Nos álbuns
ou livros de imagens, a ilustração é uma linguagem tão válida quanto o texto. Aprenda a
diferenciar"desenhos" de uma ilustração com caráter e estilo
próprios. (Aqui também, a assinatura
de um ilustrador é uma garantia de que alguém está por trás desse trabalho.)
Você está educando o olhar de uma criança. Cuidado com os estereótipos: o sol
com rosto feliz ou a típica
casinha
triangular. Olhe mais longe: peça a ilustração que não se limite a repetir o que dizem as palavras, que as amplie, que brinque com elas; que proponha novas leituras; que deixe um espaço
para a
imaginação. Os bons livros de imagem podem ser o museu de uma criança.
c) É versão original ou adaptação?
No caso dos
contos de fadas, das histórias de tradição oral ou dos clássicos, o livro deve dizer se é uma
adaptação ou uma versão original. É diferente ler o Chapeuzinho vermelho de
Perrault ou dos irmãos Grimm a ler uma adaptação, onde pode ter se perdido a
força da linguagem e a carga
simbólica
das imagens. Cuidado, também com os romances simplificados. Alice no país das maravilhas, de
Carroll, Pinóquio,
de Collodi, Peter Pan e
Wendy, de Barrie são novelas complexas e muito lindas e devem ser lidas no seu devido tempo. Ler essas obras resumidas em continhos de poucas
páginas é como ler A
Odisseia em um resumo de escola. É melhor que a criança possa
desfrutar
de toda a riqueza da obra quando crescer um pouco mais. Desconfie, também, dos
clássicos
para adultos em versões infantilizadas. Virá, no devido tempo, o momento de
desfrutar a verdadeira voz de Shakespeare ou Cervantes.
d) Qual é a idade sugerida?
A maioria
dos editores oferece sugestões de idade. Leve em conta essas recomendações, porém enriqueça-as
com os seus critérios. Existem livros para todas as idades; há outros sem
idade. Além disso,
nem todos os processos leitores são os mesmos. A idade cronológica de um leitor
é apenas uma
das variáveis. Coteje a sugestão da editora com o seu conhecimento e o dessa
criança de
verdade que
vai receber o livro.
e) Que editora publica esse livro?
Além do
nome, verifique a cidade, o ano da publicação, o nome do tradutor etc. Desconfie se essas informações não estiverem explícitas. Vire as páginas; leia
a capa e a contra capa. Você vai
encontrar
dados sobre o livro e seu autor que lhe darão as primeiras pistas.
3. Envolva
as crianças na pesquisa
Leve as
crianças a bibliotecas públicas e livrarias. Leia com elas e companhe-as em seu
processo de crescimento como leitores. Acredite na palavra da criança, mas ao
mesmo tempo, ofereça ferramentas
para que possa ir educando os seus critérios. Na medida em que uma criança tem contato com
literatura de qualidade, ela irá refinando a sua sensibilidade e tornando-se
cada vez
mais
exigente. Nem sempre o que é fácil, o que está na moda ou o que está no topo da
lista dos "mais
vendidos" é o melhor. Não se deixe, tampouco, tentar pelas coleções completas que não garantem,
por si só, a qualidade de cada título. Dê liberdade de escolha, mas ofereça,
também, a riqueza de sua experiência como leitor adulto. E não queira acertar sempre. Ler é também
equivocar-se.
4. Busque
assessoria
O campo da
literatura infantil é enorme. Muitos autores, ilustradores, gêneros e tendências que não conhecemos quando éramos crianças têm enriquecido enormemente as opções de leitura. Não
fique
limitado ao que você leu na infância. Aproveite as crianças para descobrir
novas obras e não pretenda conhecer tudo. Busque um livreiro ou um
bibliotecário que conheça literatura infantil.
Consulte as
listas de livros recomendados, as publicações sobre o assunto e as instituições que promovem a
leitura. Você vai se surpreender com as descobertas e encontrará livros, não só para ler
com seus filhos, mas também para você.
5. Não
confunda uma obra literária com um livro didático
Assim como
você procura muito mais que ensinamentos explícitos quando lê um romance de García
Márquez, seu filho busca na literatura muito mais que um ensinamento moral. A
literatura se
move na esfera do simbólico e apela à experiência profunda dos seres humanos.
Desconfie das mensagens explícitas e das morais óbvias. O mercado está cheio de
livros infantis que "disfarçam" – sob o título de "conto" –
as intenções didáticas dos adultos. Aprenda a diferenciar os manuais de autoajuda
das obras literárias. A literatura não pretende explicar valores, letras do
alfabeto, regras de
polidez ou mensagens ambientais. Leia nas entrelinhas e não escolha um livro só
pelo seu tema,mas
pela sua forma e pela maneira como um autor constrói uma voz e um mundo
próprios.
Desconfie
dessa linguagem pseudoinfantil, cheia de diminutivos e de histórias light, onde os protagonistas
são tão perfeitos como ursos de pelúcia. (Seu filho vai ser o primeiro a
"não engolir a história".) Os livros infantis podem ser atrevidos,
transgressores, irreverentes, sutis, inteligentes,
tristes...
Todas essas nuances, que constituem a infinita variedade da experiência de um
ser humano, alimentarão o mundo interior das crianças e lhes darão as chaves secretas para descriptografar
muito
sobre sua própria vida e sobre as emoções, sonhos e pesadelos sobre fantasia e
realidade.
Quando você
for ler literatura para uma criança, deixe-se tocar pela linguagem cifrada e
misteriosa
A conversa comovente de Tacey Kramer (vídeo no final do post) "O melhor presente no qual sobrevivi", em que ela descreve suas experiências com um tumor no cérebro, fornece um testemunho de um dos temas mais importantes em psicologia clínica moderna - crescimento pós-traumático.
Crescimento pós-traumático refere-se sobre como a adversidade, pode muitas vezes, ser um trampolim para uma vida nova e mais significativa em que as pessoas reavaliam suas prioridades, aprofundam suas relações, e encontram novos entendimentos de quem eles são. Crescimento pós-traumático não é simplesmente sobre como lidar, se refere às mudanças que cortam o âmago da nossa maneira de estar no mundo. Crescimento pós-traumático tem a ver com a nossa forma de saudar o dia, como acordar de manhã. A nossa forma de escovar os dentes e nos colocar em nossos sapatos - ele reflete a nossa atitude sobre a própria vida e do nosso lugar no mundo.
Estudos científicos têm demonstrado que o crescimento pós-traumático é comum em sobreviventes não só de doenças fatais, mas também outros eventos traumáticos, incluindo as catástrofes, acidentes e violência. Normalmente 30-70 por cento dos sobreviventes dizem que eles tiveram mudanças positivas de uma forma ou de outra.
Crescimento pós-traumático é um tema importante porque está mudando a forma como pensamos sobre o trauma e como tratá-lo. Ele desafia a visão tradicional psiquiátrica de trauma e nos afasta de apenas olhar para seus efeitos destrutivos, e nos volta para entender que é na luta com o sofrimento que o crescimento pode surgir.
Aqueles que tentam colocar suas vidas de volta exatamente do jeito que era, permanecem fraturados e vulneráveis. Mas aqueles que aceitam a ruptura e permitem-se construir-se de novo, se tornam mais resistentes e abertos a novas maneiras de viver.- Stephen Joseph
Crescimento pós-traumático não significa necessariamente que a pessoa vai ser totalmente livre das memórias do que aconteceu com ela, a dor que experimentou ou outras formas de sofrimento, mas que ela é capaz de viver sua vida de maneira mais significativa à luz do que aconteceu. Nós não podemos limpar nossa história e talvez a gente não deva querer fazer isso, como Stacey Kramer diz, apagar as memórias não iria mudar a sua experiência de como tudo o que aconteceu alterou a sua vida.
O foco das pesquisas estão agora em tentar desembaraçar uma dança aparentemente complexa entre estresse pós-traumático e crescimento pós-traumático. Isto pode ser ilustrado com a história do vaso quebrado. Imagine que um dia você bata acidentalmente em um vaso precioso. Ele cai no chão e quebra em pedaços minúsculos. O que você faz? Você tenta colocar o vaso de volta, juntando os cacos como era? Ou você pega as belas peças coloridas e tenta usá-las para fazer algo novo - como um mosaico colorido?
Ao passar por graves adversidades, muitas vezes as pessoas acham que pelo menos uma parte delas - seja a sua visão do mundo, seu senso de si, seus relacionamentos - foi esmagado, partido em milhões de cacos. Aqueles que tentam colocar suas vidas de volta exatamente como era, permanecem fragmentados e vulneráveis. Mas aqueles que aceitam a ruptura e aceitam construir-se de novo, se tornam mais resistentes e abertos a novas maneiras de viver.
Podemos aprender a cultivar o crescimento em nós mesmos. A chave para o crescimento é a forma como falamos para nós mesmos. Entender o significado de nossas experiências de forma que constroem significado, em que vemos a nós mesmos como sobreviventes e até mesmo prósperos, e que estabelecer esperança em nós, nos levará para o crescimento.
Como o crescimento tem raiz precisamos tomar consciência do processo. Podemos nos perguntar:
Existem maneiras em que meus relacionamentos com a família e amigos foram reforçadas e aprofundadas na intimidade?
Quais são as formas em que eu encontrei uma perspectiva diferente sobre a vida com novas oportunidades?
Há coisas que eu fiz para sobreviver; o que aconteceu que me mostrou os pontos fortes dentro de mim que eu não sabia que eu tinha?
Existem maneiras em que eu encontrei uma maior compreensão da vida e como vivê-la?
Existem maneiras em que me encontro mais grato pelo que eu tenho e para os que me rodeiam?
Quando você percebe o crescimento se enraizando, você pode alimentá-lo. Regularmente pergunte a si mesmo estas perguntas e encontre formas para agir nas mudanças que você percebe, mesmo nas menores formas. Então o seu crescimento vai florescer.
E uma outra coisa útil que a pesquisa aponta é o apoio da família e amigos. A conversa com Stacey Kramer é bem-vinda para a esperança que oferece, mas há três notas de cautela, particularmente para a família e amigos para se lembrar.
Primeiro, não devemos sobrecarregar um ao outro com a expectativa de crescimento pós-traumático. Segundo, o caminho para o crescimento não é sempre fácil, nem curto. O trauma psicológico seguindo um percurso pode ser longo e difícil.
Em terceiro lugar, não há nenhuma promessa de crescimento no fim desse percurso.
O que o aumento do consumo da “droga da obediência”, usada para o tratamento do chamado Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade, revela sobre a medicalização da educação?
ELIANE BRUM
Um estudo divulgado na semana passada pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) deveria ter disparado um alarme dentro das casas e das escolas – e aberto um grande debate no país. A pesquisa mostra que, entre 2009 e 2011, o consumo do metilfenidato, medicamento comercializado no Brasil com os nomes Ritalina e Concerta, aumentou 75% entre crianças e adolescentes na faixa dos 6 aos 16 anos. A droga é usada para combater uma patologia controversa chamada de TDAH – Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade. A pesquisa detectou ainda uma variação perturbadora no consumo do remédio: aumenta no segundo semestre do ano e diminui no período das férias escolares. Isso significa que há uma relação direta entre a escola e o uso de uma droga tarja preta, com atuação sobre o sistema nervoso central e criação de dependência física e psíquica. Uma observação: o metilfenidato é conhecido como “a droga da obediência”.
O boletim da Anvisa é uma indicação de que o uso abusivo do metilfenidato pode se tornar um problema de saúde pública no Brasil. A pesquisa é o ponto de partida para vários caminhos de investigação, inclusive jornalística. Por que Porto Alegre é a capital brasileira com maior consumo da droga? Por que o Distrito Federal é, entre as unidades da federação, a que registrou maior uso de metilfenidato? Por que Rondônia, entre os estados do norte, tem um consumo 13 vezes maior que o estado com menor consumo registrado? O que diferencia os médicos brasileiros, concentrados nas regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul, que mais prescrevem o medicamento no Brasil? E por que os três maiores prescritores, dois deles profissionais do Distrito Federal, são os mesmos nos três anos pesquisados? Em 2011, as famílias brasileiras gastaram R$ 28,5 milhões na compra da droga da obediência – R$ 778,75 por cada mil crianças e adolescentes com idade entre 6 e 16 anos. É preciso seguir as pistas e compreender o que está acontecendo.
A TDAH seria um transtorno neurológico do comportamento que atingiria de 8 a 12% das crianças no mundo. No Brasil, os índices são bastante discordantes, alcançando até 26,8% . Os sintomas considerados para o diagnóstico em crianças são: apresentar dificuldade para prestar atenção e passar muito tempo sonhando acordada; parecer não ouvir quando se fala diretamente com ela; distrair-se facilmente ao fazer tarefas ou ao brincar; esquecer as coisas; mover-se constantemente ou ser incapaz de permanecer sentada; falar excessivamente; demonstrar incapacidade de brincar calada; atuar e falar sem pensar; ter dificuldade para esperar sua vez; interromper a conversa de terceiros; demonstrar inquietação.
Um parêntese. A droga tem sido usada por jovens e adultos de todas as idades, na crença de que ela potencializaria a atenção e o rendimento. É difícil quem não conheça alguém que já usou o medicamento para fazer provas na escola ou na universidade, assim como em vestibulares e concursos. O uso é disseminado no ambiente profissional, utilizado por quem quer melhorar seu desempenho ou precisa terminar um trabalho em prazo curto. Também é popular entre aqueles que querem ficar “bombados” para uma balada. Alguns recorrem ao mercado ilegal, outros simulam os sintomas de TDAH nos consultórios médicos para conseguir a receita. Sobre esse tipo de consumo há unanimidade: é totalmente contraindicado.
Entre as considerações finais, os autores da pesquisa da Anvisa, Márcia Gonçalves de Oliveira e Daniel Marques Mota, afirmam:
- Os dados demonstram uma tendência de uso crescente no Brasil. No entanto, a pergunta que precisa ser respondida é se esse uso está sendo feito de forma segura, isto é, somente para as indicações aprovadas no registro do medicamento e para os pacientes corretos, na dosagem e períodos adequados. O uso do medicamento metilfenidato tem sido muito difundido nos últimos anos de forma, inclusive, equivocada, sendo utilizado como “droga da obediência” e como instrumento de melhoria do desempenho seja de crianças, adolescentes ou adultos. Em muitos países, como os Estados Unidos, o metilfenidato tem sido largamente utilizado entre adolescentes para melhorar o desempenho escolar e para moldar as crianças, afinal, é mais fácil modificá-las que ao ambiente. Na verdade, o medicamento deve funcionar como um adjuvante no estabelecimento do equilíbrio comportamental do indivíduo, aliado a outras medidas, como educacionais, sociais e psicológicas. Nesse sentido, recomenda-se proporcionar educação pública para diferentes segmentos da sociedade, sem discursos morais e sem atitudes punitivas, cuja principal finalidade seja a de contribuir com o desenvolvimento e a demonstração de alternativas práticas ao uso de medicamentos.
Além do questionamento proposto pelos autores, outras perguntas podem e devem ser colocadas: existe um doping legalizado das crianças? A escola, em vez de olhar cada aluno a partir da sua história e de sua singularidade, está sendo agente de um processo de homogeneização e silenciamento de crianças e adolescentes considerados “diferentes”? Estaria a droga da obediência sendo usada como uma espécie de “método pedagógico” perverso? O que isso significa? E por que não há uma discussão mais ampla em toda a sociedade brasileira?
A controvérsia sobre a droga da obediência e o chamado Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) é grande. Por uma série de razões, porém, pouco chega à população. É comum ouvir nas ruas, nas escolas e nas festas infantis que alguma criança é “hiperativa”, já que o diagnóstico e a crença de que a suposta doença possa ser resolvida com uma droga se difundiu na sociedade. Para uma parcela significativa das pessoas, soa como uma daquelas verdades “científicas” inquestionáveis.
Na realidade, os questionamentos são muitos. Há quem denuncie que os diagnósticos são mal feitos, levando à prescrição equivocada do medicamento. Há quem defenda que a doença sequer existe – seria uma invenção promovida pelo marketing da indústria farmacêutica. Para colaborar com o acesso ao que poderia ser chamado de “o outro lado do TDAH”, elenquei algumas das principais críticas e ponderações sobre a patologia e o uso da droga, feitas por pesquisadores das áreas da medicina, psicologia, psicanálise e educação. Todos os artigos citados – exceto um, ainda inédito – têm livre acesso e podem ser lidos na íntegra na internet. O foco principal é a relação entre a droga/diagnóstico e a escola, explicitada de forma inequívoca pelo boletim da Anvisa.
A história da medicina é uma história também de como ela deixa de ser o estudo das doenças para passar a definir o que é a normalidade. “A medicina se atribui todo o universo de relações do homem com a natureza e com outro homem, isto é, a vida. Legislando sobre hábitos de alimentação, vestuário, habitação, higiene, aplica a esses campos a mesma abordagem empregada frente às doenças. Adotando (assim) um discurso genérico, aplicável a todas as pessoas, porque neutro”, afirma Maria Aparecida Affonso Moysés, professora titular de Pediatria da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, em um artigo muito interessante, intitulado “A Medicalização na Educação Infantil e no Ensino Fundamental e as Políticas de Formação Docente” (leia aqui). “Com o consentimento da sociedade, que delega à medicina a tarefa de normatizar, legislar e vigiar a vida, estão colocadas as condições históricas para a medicalização da sociedade, aí incluídos comportamento e aprendizagem. (...) É preciso abolir as particularidades, o subjetivo, a imprecisão, para que o pensamento racional e objetivo se imponha. Não se esqueça que o discurso médico, nesse momento – aliás, o discurso científico, em qualquer momento – está afinado com as demandas dos grupos hegemônicos.”
1) A medicina e a definição da “normalidade”
A medicalização, segundo a pediatra, é resultado do processo de conversão de questões sociais e humanas em biológicas – transformando os problemas da vida em doenças ou distúrbios. É neste contexto que teria surgido uma doença que impediria a criança de aprender, com outros nomes antes de ser registrada como TDAH. É assim que se medicaliza a educação, transformando problemas pedagógicos e políticos em questões biológicas e médicas. “O discurso médico irá apregoar a existência de crianças incapazes de aprender, a menos que submetidas a uma intervenção especial – uma intervenção médica”, afirma. E conclui: “A atuação medicalizante da medicina consolida-se ao ser capaz de se infiltrar no pensamento cotidiano, ou, mais precisamente, no conjunto de juízos provisórios e preconceitos que regem a vida cotidiana. E a extensão (e a intensidade) em que esse processo ocorre pode ser apreendida pela incorporação do discurso médico, não importa se científico ou preconceituoso, pela população. A medicina constrói, assim, artificialmente, as ‘doenças do não-aprender-na-escola’ e a consequente demanda por serviços de saúde especializados, ao se afirmar como instituição competente e responsável por sua resolução. A partir deste momento, a medicina se apropriará cada vez mais do objeto aprendizagem. Sem mudanças significativas, apenas estendendo seu campo normativo”.
Em “Os Equívocos da Infância Medicalizada” (leia aqui), Margareth Diniz, professora da Universidade Federal de Ouro Preto, com doutorado em educação,
explicita a diferença entre “medicar” e “medicalizar”: “Medicar pode ser necessário, desde que caso a caso. Já a medicalização é o processo pelo qual o modo de vida dos homens é apropriado pela medicina e que interfere na construção de conceitos, regras de higiene, normas de moral e costumes prescritos – sexuais, alimentares, de habitação – e de comportamentos sociais. Este processo está intimamente articulado à idéia de que não se pode separar o saber – produzido cientificamente em uma estrututa social – de suas propostas de intervenção na sociedade, de suas proposições políticas implícitas. A medicalização tem, como objetivo, a intervenção política no corpo social”.
2) A escola e o ciclo da medicalização da infância
O caminho que leva ao diagnóstico de TDAH e à prescrição da droga da obediência, entre os mais pobres e usuários da rede pública de ensino, inicia na escola, a partir das dificuldades de aprendizagem e/ou insubordinação de determinada criança ou adolescente. Como a família em geral não conseguiria dar uma resposta ao problema, a escola ou encaminha ao médico, ou aciona o conselho tutelar. Entre as crianças mais ricas, clientes do sistema privado de ensino, o ciclo é semelhante, com exceção de que estas não estão vulneráveis à tutela e à vigilância do Estado. Neste caso, a escola encaminha ao psicólogo e este ao neuropediatra – ou diretamente ao neuropediatra, que prescreve o medicamento.
Esta é a análise da psicanalista Michele Kamers, professora do curso de psicologia do Ibes-Sociesc, coordenadora dos cursos de especialização em psicologia hospitalar e da saúde e psicopatologia da infância e da adolescência do Hospital Santa Catarina, de Blumenau, e mestre em educação pela Universidade de São Paulo. No artigo intitulado “A Fabricação da Loucura na Infância: Psiquiatrização do Discurso e Medicalização da Infância”, ainda inédito, ela afirma que a escola se converteu em um mecanismo de inclusão da criança no campo do saber médico-psiquiátrico. “As escolas, as unidades de saúde e as clínicas privadas agenciam e legitimam a intervenção médica e farmacológica sobre a criança, fazendo com que a medicalização venha se convertendo na principal forma de tratamento utilizada para responder às demandas sociais realizadas pelas instituições de assistência à infância”, diz. “A medicina, juntamente com a assistência psicológica, social e pedagógica, forma uma rede de tutela e encaminhamentos múltiplos. A partir do momento em que a criança e sua família são capturadas, não conseguem mais sair.”
É corriqueiro, segundo Margareth Diniz, receber pais em busca de tratamento para seus filhos por exigência da escola. “Todos nós que nos ocupamos da clínica também estamos habituados com solicitações de tratamento de crianças a partir de uma exigência da escola em relação à sua inadaptação, ou inadequação às regras mais elementares de seu aprendizado e de sua socialização. Normalmente são os pais, mais especificamente as mães, que nos formulam esse pedido. O que torna esses pedidos curiosos é que, invariavelmente, trazem consigo um enunciado pedagógico nos seguintes termos: ‘A escola chegou à conclusão que esta criança necessita de um acompanhamento’”.
A psicóloga Renata Guarido, que defendeu uma tese de mestrado na Universidade de São Paulo intitulada “O Que Não Tem Remédio, Remediado Está: a Medicalização da Vida e Algumas Implicações do Saber Médico na Educação”, mostra como a criança passou de objeto da pedagogia a objeto da medicina. Renata afirma que a medicina passou a determinar quem era “educável ou ineducável” (leia aqui): “Vemos as crianças e suas famílias submetidas ao poder exercido pela constituição de um domínio do saber médico-psicológico, sem que o contexto de seus sofrimentos, bem como sua possibilidade de tratamento, sejam orientados para outras formas de consideração da subjetividade, que não a normalizante e de ‘treinamento’”.
Em sua análise, Renata reforça como são corriqueiras hoje nas escolas as cenas em que professores e coordenadores dão o diagnóstico de TDAH diante de determinados comportamentos das crianças e adolescentes, encaminhando-os para avaliação psiquiátrica, neurológica e psicológica. Também já faz parte da rotina professores e outros agentes escolares perguntarem aos pais de um aluno em tratamento se ele foi corretamente medicado naquele dia. “Tais procedimentos nos permitem entrever que estão crentes de que a variação no uso do remédio é responsável pela variação dos comportamentos e estados psíquicos das crianças, e que esta não teria nenhuma relação com variações, mudanças ou experiências no interior do cotidiano escolar. (...) Ao assumir e validar o discurso médico-psicológico, a pedagogia não deixa de fazer a manutenção dessa mesma prática, desresponsabilizando a escola e culpabilizando as crianças e suas famílias por seus fracassos”.
3) A criança como objeto, não mais como sujeito
Entre as principais críticas feitas por aqueles que alertam para o processo de medicalização da infância – e especificamente sobre o TDAH e a droga da obediência – está a constatação de que as crianças deixam de ser escutadas na sua singularidade, como um protagonista que tem uma história e está inserido num contexto familiar e social, para se tornar um objeto com uma falha no corpo, sujeito à intervenção e à correção por medicamentos. Assim, as crianças e adolescentes têm sido calados naquilo que estão tentando dizer a pais e professores, em nome de um ideal de “normalidade” determinado pelo olhar médico e legitimado e reproduzido pela escola – e também pelos dispositivos de vigilância do Estado. O que se cala são os conflitos – que deveriam ser os propulsores do ato de educar.
Em O Livro Negro da Psicopatologia Contemporânea (Via Lettera, 2011), o psicanalista Alfredo Jerusalinsky escreve um capítulo intitulado “Gotinhas e comprimidos para crianças sem história – uma psicopatologia pós-moderna para a infância”. Ele afirma: “Não se questiona o que quer dizer este ponto, esta palavra ou este gesto fora do lugar. (...) Na trajetória que estamos descrevendo, foi se apagando esse esforço por ver e escutar um sujeito, com todas as dificuldades que ele tivesse, no que tivesse para dizer, e foi-se substituindo o dado ordenado segundo uma nosografia (descrição das doenças) que apaga o sujeito. (...) É assim que os problemas deixam de ser problemas para serem transtorno. É uma transformação epistemológica importante, e não uma mera transformação terminológica. Um problema é algo para ser decifrado, interpretado, resolvido; um transtorno é algo a ser eliminado, suprimido porque molesta. Os nomes das categorias não são inocentes”. Escrevi sobre este livro na coluna “Os Robôs Não Nos Invejam Mais”, que pode ser lida aqui.
Em artigo já citado, Renata Guarido mostra que não é calada apenas a voz dessas crianças e adolescentes classificados como fora do padrão de uma pretensa normalidade. Mas até mesmo o seu nome é apagado. “Não é incomum observar, nas unidades de saúde ou mesmo nas escolas, que o nome do paciente ou do aluno seja substituído por sua classificação diagnóstica – estranha nomeação dos indivíduos que põe em relevo o lugar que ocupam na escala normal”, diz Renata. “A medicalização em larga escala das crianças nos tempos atuais pode ser lida também como apelo ao silêncio dos conflitos, negando-os como inerentes à subjetividade e ao encontro humano. Que o discurso pedagógico contribua para a manutenção desse tipo de recurso deve ser objeto constante de crítica em direção à possibilidade de que o lugar do ato educativo seja redefinido.”
Em “Hiperatividade: o ‘Não Decidido’ da Estrutura ou o ‘Infantil’ ainda no Tempo da Infância”, as psicanalistas Viviane Neves Legnani, professora da Universidade de Brasília (UnB), e Sandra Francesca Conte de Almeida, professora da Universidade Católica de Brasília, refletem sobre a TDAH a partir da descrição de um caso concreto (leia aqui). Elas afirmam : “Nossa experiência com escolas permitiu observar que muitos professores se servem dos indicadores descritivos que acompanham o diagnóstico de TDAH para sustentar uma prática pedagógica ‘didaticamente planejada’ para lidar ‘com os difíceis alunos portadores de hiperatividade’. O preço deste planejamento, no entanto, nem sempre é considerado: a impossibilidade de a criança encontrar o seu lugar na escola, a partir de sua singularidade. Como consequência da padronização pedagógica, ‘cientificamente’ estruturada, tem-se que o educador não escuta e não legitima a palavra dita pela criança, já que esta é vista como ‘doente’ e, portanto, incapaz”.
4) Ninguém se responsabiliza – ou por que a medicalização prospera
Não é apenas a escola que se desresponsabiliza, quando aquilo que pertence ao humano é tratado como patologia, mas também a criança e o adolescente, na tarefa de criar uma vida. Ao serem classificados como doentes ou portadores de um transtorno, e ao introjetarem este ser/estar no mundo como doentes ou portadores de um transtorno, é o diagnóstico que lhes determina o destino. Na hipótese de realizar qualquer conquista, ela é computada na conta da droga. Em “O Sujeito Refém do Orgânico” (leia aqui), Renata Guarido afirma: “Crianças e adultos, sendo desresponsabilizados de sua implicação com aquilo que lhes acontece, tornam-se também impotentes para atuarem sobre seus sofrimentos e aprendizados. E a impotência é então mais um efeito deste discurso biológico. Só é visto como potente o especialista que saberia o que fazer diante do diagnóstico que profere. Sendo o aprendizado descrito como efeito do funcionamento cerebral, da estimulação correta deste órgão que nos governa, temos sua descrição reduzida a uma dimensão privada, que ocorre no interior do indivíduo e não a partir do laço entre dois ou mais sujeitos. Ou seja, o aprendizado perde o caráter de ser fruto da ação humana, dimensão do encontro na pluralidade própria do mundo público, onde produzimos história”.
Margareth Diniz analisa por que a aceitação desse discurso ecoa na sociedade e é por ela reproduzido: “A criança e o adolescente esperam do outro que lhe responda algo acerca do enigma de sua existência, e os outros esperam das crianças que se conduzam na vida de modo a responder aos seus ideais. A fim de salvar os pais de tamanha angústia diante do não saber, surgem as tentativas de tornar científicas as respostas a estas questões, na busca de aplacar o mal-estar. A ciência começa a forjar um saber que não pertence nem ao pai, nem a mãe. Estes são levados a interferirem cada vez menos na educação dos filhos. Entra em cena a figura dos especialistas, autorizados principalmente pelo discurso da mãe, que demonstra um verdadeiro fascínio pela promessa de um saber total, sem furos”.
Não são apenas os professores, mas também os pais que passaram a exigir diagnóstico e medicamento para calar os conflitos na escola e dentro de casa. Afinal, é muito mais fácil lidar com uma “doença”, quase uma fatalidade, que diz respeito apenas ao funcionamento de um corpo e para a qual existiria uma pílula milagrosa, do que escutar o que uma criança ou um adolescente está dizendo com seu comportamento. “Os pais acusam as escolas de rotular suas crianças de hiperativas indiscriminadamente, antes mesmo de obter um diagnóstico médico, mas há relatos de que também alguns pais impacientes andam utilizando o diagnóstico de hiperatividade como desculpa para entupir seus filhos de remédio e mantê-los ‘sossegados’, daí que o medicamento tenha sido batizado por ‘droga da obediência’”, afirma Margareth. “Isso os desculpabiliza por não estarem dando conta de impor limites aos filhos, por exemplo, em relação à hora de dormir ou de desligar seus computadores e jogos eletrônicos.”
5) O marketing da indústria farmacêutica
O transtorno de hiperatividade pode ser um daqueles casos em que a droga ajuda a moldar o diagnóstico. Críticos da medicalização afirmam que não é comprovada a existência de uma doença que só altere o comportamento e a aprendizagem. Neste sentido, a disseminação do diagnóstico de TDAH inverteria a lógica da medicina, na qual seria preciso primeiro comprovar a doença e depois tratá-la. O fenômeno obedeceria mais à lógica do mercado do que a da saúde – com a relação próxima e, em alguns casos, promíscua, entre laboratórios e médicos. “A ligeireza (e imprecisão) com que as pessoas são transformadas em anormais é diretamente proporcional à velocidade com que a psicofarmacologia e a psiquiatria contemporânea expandiram seu mercado. Não deixa de ser surpreendente que o que foi apresentado como avanço na capacidade de curar tenha levado a ampliar em uma progressão geométrica a quantidade de doentes mentais”, alertam Alfredo Jerusalinski e Silvia Fendrik em O Livro Negro da Psicopatologia Moderna.
“A produção de saber sobre o sofrimento psíquico encontra-se associada à produção da indústria farmacêutica de remédios que prometem aliviar os sofrimentos existenciais. O consumo em larga escala dos medicamentos e o crescimento exponencial da indústria farmacêutica tornam-se elementos indissociáveis do exercício do poder médico apoiado em um saber consolidado ao longo do século XX”, analisa Renata Guarido. “Se a psiquiatria clássica, de forma geral, esteve às voltas com fenômenos psíquicos não codificáveis em termos do funcionamento orgânico, guardando espaço à dimensão enigmática da subjetividade, a psiquiatria contemporânea promove uma naturalização do fenômeno humano e uma subordinação do sujeito à bioquímica cerebral, somente regulável por uso de remédios. Há aí uma inversão não pouco assustadora, pois na lógica atual de construção diagnóstica, o remédio participa da nomeação do transtorno. Visto que não há mais uma etiologia (estudo das causas da doença) e uma historicidade a serem consideradas, pois a verdade do sintoma/transtorno está no funcionamento bioquímico, e os efeitos da medicação dão validade a um ou outro diagnóstico.”
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Estes cinco pontos são apenas algumas pistas para compreender o crescimento do Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade entre as crianças e adolescentes e a disseminação da droga da obediência. Dito de outro jeito, questionar o aumento dos “anormais” nas escolas brasileiras. Ou dos “desobedientes”. A falta de espanto de pais e professores diante do fenômeno mostra como a medicalização está naturalizada na sociedade brasileira. Afinal, parte destes pais e professores também fazem, no seu próprio cotidiano, o uso de drogas legais para silenciar suas dores humanas. Por que acreditariam que com seus filhos e alunos seria diferente? Drogar-se, legalmente, é uma marca da nossa época.
Ninguém sabe quais serão os efeitos a longo prazo do uso contínuo do metilfenidato sobre o cérebro em formação das crianças. O que acontecerá no futuro com essa geração legalmente drogada ainda é uma incógnita. Pelo menos, valeria a pena pensarmos no presente: por que estamos dopando crianças e adolescentes em vez de tentar escutá-los e entendê-los em sua singularidade? E o que isso diz sobre nós, os adultos?