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Um pouco de cor na alma pode fazer toda diferença!




A animação portuguesa "Cidade Colorida" da Nebula Studios, de maneira simples, nos faz lembrar que um pouco de cor na Alma pode fazer toda diferença no nosso dia. Principalmente quando as cores pintam a expressão da nossa singularidade.
Um bom dia para você!


EMPATIA: Como desenvolver essa habilidade nos adultos e nas crianças?

         A empatia é uma habilidade social de extrema importância.  Segundo Goleman, "A empatia, capacidade que se desenvolve na autoconsciência emocional, é a aptidão pessoal fundamental. As pessoas empáticas estão mais sintonizadas com os sutis sinais sociais que indicam de que os outros precisam ou querem." (Goleman, 1995) Através da empatia somos capazes não apenas de manter relações interpessoais mais justas e equilibradas, como também temos a oportunidade de nos sensibilizarmos para além da nossa própria perspectiva, de nos mobilizarmos pelo coletivo, pelo grupo, pela humanidade.
           Quanto mais uma pessoa evolui e amadurece, mais empática ela se torna.  
         A educação das sensibilidades perpassa pela empatia, a cultura de paz tem na empatia um dos seus mais fundamentais pressupostos e a educação emocional tem na empatia uma das suas mais preciosas ferramentas.
        Por se tratar de uma habilidade que em grande parte envolve a comunicação (verbal e não verbal) e a inteligência emocional, a empatia pode ser estimulada e desenvolvida. Sem a empatia, podemos tropeçar nas ações ligadas ao nosso desejo de fazer o bem. 
      Sem desenvolver a empatia, podemos nem nos dar conta das consequências das nossas atitudes nos outros. Sabe quando alguém faz algo que te fere muito e você fica se perguntando como essa pessoa consegue ficar em paz? A verdade é que essa pessoa pode não ter a menor noção da dor causada. Como isso é possível? Pense em um calo no pé, endurecido. Se você aproximar um objeto, a sensibilidade que você tem na pele normal e no calo é diferente. No calo, a sensibilidade é menor.
Aliás, a busca em se tornar um verdadeiro homem de bem exige soltar pouco a pouco as camadas da casca grossa do egoísmo para tornar-se mais sensível às necessidades do outro. Nesse sentido, nossas ações no bem e o arrependimento, autêntico, só florescem quando desenvolvemos um pouco mais nossas habilidades empáticas.
         A empatia é um fenômeno bastante complexo de ser analisado didaticamente, já que envolve diversos processos concomitantes.(FALCONE, PLÁCIDO E KRIEGER, 2011) O primeiro processo é chamado por diversos autores, de cognitivo.No processo cognitivo somos capazes de perceber nitidamente o estado interno da outra pessoa, ou seja, tomamos a perspectiva do outro. Para que isso ocorra se faz necessário que haja flexibilidade mental para sair da sua perspectiva para a do outro, autoconsciência (clareza da própria perspectiva), consciência do outro (percepção da perspectiva do outro) e autorregulação (administração desse processo).
         Você já passou por uma situação onde uma pessoa tenta ser empática com você, mas ela demonstra não ter a menor ideia das suas necessidades, da sua perspectiva do que está acontecendo? Ou ainda a pessoa tenta fazer algo que ela acha que você está precisando, mas na verdade as necessidades são dela? 
         Veja que nesse primeiro processo essas percepções do eu e do outro são fundamentais.
          O segundo processo envolve os aspectos afetivos. Ou seja, nesse processo estão os motivadores, os interesses, os sentimentos autênticos de atender as necessidades do outro. Não necessariamente a pessoa irá compartilhar dos mesmos sentimentos do outro, mas é fundamental a consciência e percepção dos seus próprios sentimentos. Essa dimensão é a mais complexa de ser estimulada, já que o desejo autêntico de fazer o bem trata-se de um despertar no próprio processo evolutivo. Mas temos que considerar que muitas vezes os motivadores empáticos estão ligados ao amor, mas também podemos encontrar motivadores ligados à aspectos éticos, de justiça e de dever. 
            E no terceiro processo temos os aspectos comportamentais que envolvem as expressões verbais e não verbais dos envolvidos. Aquele que empatiza precisa não apenas perceber essas expressões no outro, como também ser capaz de interagir e expressar-se de forma que o outro sinta-se validado e compreendido em suas necessidades. Se você encontra uma criança caída no chão chorando, não basta compreender a perspectiva dela e ter o desejo de ajudá-la, você precisa abaixar-se, olhá-la de maneira que a conforte, verificar se está machucada, etc. Se você escuta alguém te contanto algo que lhe ocorreu, sem demonstrar expressões faciais e  outras expressões não verbais de que está acompanhando a conversa, de que está entendendo, de que se impressionou com determinada parte, por exemplo, o outro pode sentir que você não está interessado ou mesmo que não "se conectou a ele".
            Às vezes uma pessoa pode ter um desejo autêntico de atender as necessidades  dos outros, mas por ter dificuldade em perceber a perspectiva do outro, acaba julgando, ao invés de empatizar. Sem  expressar-se assertivamente, por outro lado, a comunicação fica restrita e o outro pode não sentir que está sendo compreendido. Apenas com o desejo de fazer o bem e identificando-se com os sentimentos dos outros, sem as outras dimensões da empatia, também corremos o risco de o colocarmos numa posição de inferioridade e dependência, tirando do outro a dignidade de sentir-se capaz de lidar com as próprias dificuldades. Pena não é empatia. 
            Para desenvolver as habilidades empáticas portanto, temos que nos atentar para as três dimensões.
            No blog da Ame Editorinha faremos uma série de posts para tratar das três dimensões da empatia, com propostas de exercícios de treino para adultos e crianças.
            Para começar, colocamos uma imagem com 5 dicas para você começar a exercitar com as crianças que você cuida. E, legendamos especialmente para você, um video muito interessante, feito por uma clínica médica de Cleveland sobre a empatia. 
         Assista o video e comente conosco o que você achou!Deixe sua mensagem em nosso mural de recados na barra direita.
             Boa semana e até a próxima!

               

            
              
             



Atividade: Bonequinhas da Sorte (conversando com as preocupações)




Texto de Bianca Molica Ganuza

       Você já deve ter visto umas bonequinhas bem pequenininhas parte da cultura dos povos de origem maia, inca e asteca. Na Guatemala essas bonequinhas são um artesanato muito popular entre os turistas.
       Na verdade vamos encontrar expressões dessas bonecas em muitas culturas. O interessante é que em diversos lugares a proposta das bonequinhas é a mesma: Contar suas preocupações para as bonequinhas antes de dormir; colocá-las debaixo do travesseiro; deixar que as bonequinhas aliviem as preocupações. 
         Na Rússia, um conto de fadas muito popular faz menção à uma bonequinha minúscula que dava conselhos para uma menina que perdeu sua mãe.A história é contada em todos os países bálticos, e segundo Clarissa Estés Pinkola é mais conhecida como "Wassilissa, a sabida"
     A proposta aqui é buscar essas inspirações para uma atividade que tem por objetivo aliviar a ansiedade das crianças.
         Vale a pena destacar que todas as atividades precisam que a postura interna e externa do educador seja de acolhimento e coerente com a proposta.
          O primeiro passo é fazer as bonequinhas com as crianças. Segue uma imagem que trata-se de uma proposta interessante de um grupo internacional de abordagem arterapêutica com trauma.(Trauma Informed Art-Therapy Practice)
Utilizando palitos de sorvete, retalhos de tecido e canetinhas é possível fazer bonequinhas criativas. Durante a atividade apenas informar para as crianças que essas bonequinhas serão utilizadas depois. Ou seja, deixar as crianças criarem suas bonequinhas livremente, sem muita informação da utilidade das mesmas.
Uma vez prontas as bonequinhas, contar que trata-se de uma prática muito antiga contar seus problemas e preocupações para as bonequinhas e colocá-las debaixo do travesseiro antes de dormir. As bonequinhas ajudam a aliviar preocupações e a encontrar soluções dos problemas através dos sonhos. 
À noite, sentar-se com a criança para ler e antes de dormir perguntar se tem algo que ela gostaria de contar para a bonequinha. Lembre-se da postura, do acolhimento e de não emitir um comentário precipitado. (- Imagina, não precisa se preocupar com isso!) Se a proposta for feita para um grupo de crianças ou em sala de aula, recomendar que os pais ou cuidadores façam o mesmo.
No dia seguinte conversar com a criança sobre como dormiu, se ela sonhou...
       Caso ela manifeste que não se lembra do que sonhou tranquilize-a de que os sonhos aparecem quando se menos espera.


          

O que não nos mata: crescimento pós-traumático





texto de  Stephen Joseph
Publicado no TED WEEKENDS

A conversa comovente de Tacey Kramer (vídeo no final do post) "O melhor presente no qual sobrevivi", em que ela descreve suas experiências com um tumor no cérebro, fornece um testemunho de um dos temas mais importantes em psicologia clínica moderna - crescimento pós-traumático.

Crescimento pós-traumático refere-se sobre como a adversidade, pode muitas vezes, ser um trampolim para uma vida nova e mais significativa em que as pessoas reavaliam suas prioridades, aprofundam suas relações, e encontram novos entendimentos de quem eles são. Crescimento pós-traumático não é simplesmente sobre como lidar, se refere às mudanças que cortam o âmago da nossa maneira de estar no mundo. Crescimento pós-traumático tem a ver com a nossa forma de saudar o dia, como acordar de manhã. A nossa forma de escovar os dentes e nos colocar em nossos sapatos - ele reflete a nossa atitude sobre a própria vida e do nosso lugar no mundo.

Estudos científicos têm demonstrado que o crescimento pós-traumático é comum em sobreviventes não só de doenças fatais, mas também outros eventos traumáticos, incluindo as catástrofes, acidentes e violência. Normalmente 30-70 por cento dos sobreviventes dizem que eles tiveram mudanças positivas de uma forma ou de outra.

Crescimento pós-traumático é um tema importante porque está mudando a forma como pensamos sobre o trauma e como tratá-lo. Ele desafia a visão tradicional psiquiátrica de trauma e nos afasta de apenas olhar para seus efeitos destrutivos, e nos volta para entender que é na luta com o sofrimento que o crescimento pode surgir.

Aqueles que tentam colocar suas vidas de volta exatamente do jeito que era, permanecem fraturados e vulneráveis. Mas aqueles que aceitam a ruptura e permitem-se construir-se de novo, se tornam mais resistentes e abertos a novas maneiras de viver.- Stephen Joseph
Crescimento pós-traumático não significa necessariamente que a pessoa vai ser totalmente livre das memórias do que aconteceu com ela, a dor que experimentou ou outras formas de sofrimento, mas que ela é capaz de viver sua vida de maneira mais significativa à luz do que aconteceu. Nós não podemos limpar nossa história e talvez a gente não deva querer fazer isso, como Stacey Kramer diz, apagar as memórias não iria mudar a sua experiência de como tudo o que aconteceu alterou a sua vida.

O foco das pesquisas estão agora em tentar desembaraçar uma dança aparentemente complexa entre estresse pós-traumático e crescimento pós-traumático. Isto pode ser ilustrado com a história do vaso quebrado. Imagine que um dia você bata acidentalmente  em um vaso precioso. Ele cai no chão e quebra em pedaços minúsculos. O que você faz? Você tenta colocar o vaso de volta, juntando os cacos como era? Ou você pega as belas peças coloridas e  tenta usá-las para fazer algo novo - como um mosaico colorido?
Ao  passar por graves adversidades, muitas vezes as pessoas acham que pelo menos uma parte delas - seja a sua visão do mundo, seu senso de si, seus relacionamentos - foi esmagado, partido em milhões de cacos. Aqueles que tentam colocar suas vidas de volta exatamente como era, permanecem fragmentados e vulneráveis. Mas aqueles que aceitam a ruptura e aceitam construir-se de novo, se tornam mais resistentes e abertos a novas maneiras de viver.

Podemos aprender a cultivar o crescimento em nós mesmos. A chave para o crescimento é a forma como falamos para nós mesmos. Entender o significado de nossas experiências de forma que constroem significado, em que vemos a nós mesmos como sobreviventes e até mesmo prósperos, e que estabelecer esperança em nós, nos levará para o crescimento.

Como o crescimento tem raiz precisamos tomar consciência do processo. Podemos nos perguntar:

Existem maneiras em que meus relacionamentos com a família e amigos foram reforçadas e aprofundadas na intimidade?

Quais são as formas em que eu encontrei uma perspectiva diferente sobre a vida com novas oportunidades?

Há coisas que eu fiz para sobreviver; o que aconteceu que me mostrou os pontos fortes dentro de mim que eu não sabia que eu tinha?

Existem maneiras em que eu encontrei uma maior compreensão da vida e como vivê-la?

Existem maneiras em que me encontro mais grato pelo que eu tenho e para os que me rodeiam?

Quando você percebe o crescimento se enraizando, você pode alimentá-lo. Regularmente pergunte a si mesmo estas perguntas e encontre formas para agir nas mudanças que você percebe, mesmo nas menores formas. Então o seu crescimento vai florescer.

E uma outra coisa útil que a pesquisa aponta é o apoio da família e amigos. A conversa com  Stacey Kramer é bem-vinda para a esperança que oferece, mas há três notas de cautela, particularmente para a família e amigos para se lembrar.
Primeiro, não devemos sobrecarregar um ao outro com a expectativa de crescimento pós-traumático. Segundo, o caminho para o crescimento não é sempre fácil, nem curto. O trauma psicológico seguindo um percurso pode ser longo e difícil.
Em terceiro lugar, não há nenhuma promessa de crescimento no fim desse percurso.




Atividade: gratidão e o que vale a pena esquecer


Texto: Bianca Molica Ganuza


      O site herewearetogether.com tem uma proposta bem simples para se fazer um jardim zen com as crianças. O objetivo é estimular uma prática meditativa com as crianças, juntando em uma vasilha um pouco de areia, algumas pedras, uma pequena vela e um pauzinho para a criança fazer formas e desenhos enquanto relaxa.
Acho a ideia incrível, mas pegando o gancho das nossas propostas de atividades para a educação emocional, minha proposta é:
1 - reunir os materiais para fazer o jardim zen com a criança;
2 - separar pedras de diferentes tamanhos e tinta plástica;
3 - contar a história a seguir dos dois amigos;
4 - fazer a proposta de atividade (descrita após a história neste post)

Os dois amigos (autor desconhecido)

        A história conta que dois amigos estavam andando pelo deserto. Durante algum ponto da viagem, eles tiveram uma discussão, e um amigo bateu no rosto do outro.
Aquele que foi esbofeteado ficou ferido, mas sem dizer nada, escreveu na areia:
HOJE MEU MELHOR AMIGO me deu um tapa no rosto.
Eles continuaram andando até que encontraram um oásis onde resolveram tomar banho. O que tinha sido esbofeteado ficou preso na lama e começou a se afogar, mas o amigo salvou-o.
Depois que ele se recuperou do quase afogamento, ele escreveu em uma pedra:
HOJE MEU MELHOR AMIGO SALVOU MINHA VIDA.
O amigo que havia esbofeteado e salvo o seu melhor amigo lhe perguntou: "Depois  que eu te machuquei, você escreveu na areia e agora, você escreve em uma pedra, por quê?"
O outro amigo respondeu: "Quando alguém nos machuca, devemos escrever na areia, onde os ventos podem apagar. Mas, quando alguém faz algo de bom para nós, devemos gravar isso na pedra onde nenhum vento jamais poderá apagá-lo. "

Proposta de atividade:
            Pedir à criança para desenhar na areia algo que ela gostaria que o vento apagasse. Importante permanecer em silêncio e perguntar ao final se a criança gostaria de explicar o que fez. Se ela não quiser, não insistir. Depois disso pedir à criança para colorir as pedras pensando em algo que fizeram de bom para ela, algo que ela não quer esquecer. Da mesma forma perguntar se ela quer contar o que fez e não insistir se ela não quiser. Permita que a criança deixe o jardim zen do jeito que ela achar melhor.
Até a próxima!

A descoberta de um sentido no sofrimento



Será que é possível descobrir um sentido que nos impulsione no sofrimento? As religiões tem muito a dizer sobre isso, mas o que será que a psicologia esclarece? Sobre esse assunto, em torno da proposta de educação emocional, conhecer um pouco mais sobre o pensamento do psiquiatra Victor Frankl é algo que vale a pena.
Confira a entrevista e logo abaixo uma matéria que foi publicada na revista Bravo.




No dia 2 de setembro [de 1997] morreu, aos 92 anos, um dos homens realmente grandes deste século. Acabo de escrever isto e já tenho uma dúvida: não sei se o médico judeu austríaco Viktor Frankl pertenceu mesmo a este século. Pois ele só viveu para devolver aos homens o que o século XX lhes havia tomado - e não poderia fazê-lo se não fosse, numa época em que todos se orgulham de ser "homens do seu tempo", alguém muito maior do que o século.
Viktor Emil Frankl, nascido em Viena em 26 de março de 1905, foi grande nas três dimensões em que se pode medir um homem por outro homem: a inteligência, a coragem, o amor ao próximo. Mas foi maior ainda naquela dimensão que só Deus pode medir: na fidelidade ao sentido da existência, à missão do ser humano sobre a Terra.
Homem de ciência, neurologista e psiquiatra, não foi o estudo que lhe revelou esse sentido. Foi a temível experiência do campo de concentração. Milhões passaram por essa experiência, mas Frankl não emergiu dela carregado de rancor e amargura. Saiu do inferno de Theresienstadt levando consigo a mais bela mensagem de esperança que a ciência da alma deu aos homens deste século.
O que possibilitou esse milagre singular foi a confluência oportuna de uma decisão pessoal e dos fatos em torno. A decisão pessoal: Frankl entrou no campo firmemente determinado a conservar a integridade da sua alma, a não deixar que seu espírito fosse abatido pelos carrascos do seu corpo. Os fatos em torno: Frankl observou que, de todos os prisioneiros, os que melhor conservavam o autodomínio e a sanidade eram aqueles que tinham um forte senso de dever, de missão, de obrigação. A obrigação podia ser para com uma fé religiosa: o prisioneiro crente, com os olhos voltados para o julgamento divino, passava por cima das misérias do momento. Podia ser para com uma causa política, social, cultural: as humilhações e tormentos tornavam-se etapas no caminho da vitória. Podia ser, sobretudo, para com um ser humano individual, objeto de amor e cuidados: os que tinham parentes fora do campo eram mantidos vivos pela esperança do reencontro. Qualquer que fosse a missão a ser cumprida, ela transfigurava a situação, infundindo um sentido ao nonsense do presente. Esse senso de dever era a manifestação concreta do amor - o amor pelo qual um homem se liberta da sua prisão externa e interna, indo em direção àquilo que o torna maior que ele mesmo.
O sentido da vida, concluiu Frankl, era o segredo da força de alguns homens, enquanto outros, privados de uma razão para suportar o sofrimento exterior, eram acossados desde dentro por um tirano ainda mais pérfido que Hitler - o sentimento de viver uma futilidade absurda.
Frankl tinha três razões para viver: sua fé, sua vocação e a esperança de reencontrar a esposa. Ali onde tantos perderam tudo, Frankl reconquistou não somente a vida, mas algo maior que a vida. Após a libertação, reencontrou também a esposa e a profissão, como diretor do Hospital Policlínico de Viena.
Assim ele registra, no seu livro Man's Search for Meaning, uma das experiências interiores que o levaram à descoberta do sentido da vida:
"Um pensamento me traspassou: pela primeira vez em minha vida enxerguei a verdade tal como fora cantada por tantos poetas, proclamada como verdade derradeira por tantos pensadores. A verdade de que o amor é o derradeiro e mais alto objetivo a que o homem pode aspirar. Então captei o sentido do maior segredo que a poesia humana e o pensamento humano têm a transmitir: a salvação do homem é através do amor e no amor. Compreendi como um homem a quem nada foi deixado neste mundo pode ainda conhecer a bem-aventurança, ainda que seja apenas por um breve momento, na contemplação da sua bem-amada. Numa condição de profunda desolação, quando um homem não pode mais se expressar em ação positiva, quando sua única realização pode consistir em suportar seus sofrimentos da maneira correta - de uma maneira honrada -, em tal condição o homem pode, através da contemplação amorosa da imagem que ele traz de sua bem-amada, encontrar a plenitude. Pela primeira vez em minha vida, eu era capaz de compreender as palavras: 'Os anjos estão imersos na perpétua contemplação de uma glória infinita'."
Frankl transformou essa descoberta num conceito científico: o de doenças noogênicas. Noogênico quer dizer "proveniente do espírito". Além das causas somáticas e psíquicas do sofrimento humano, era preciso reconhecer um sofrimento de origem propriamente espiritual, nascido da experiência do absurdo, da perda do sentido da vida: "O homem, dizia ele, pode suportar tudo, menos a falta de sentido."
Das reflexões de Frankl sobre a experiência do absurdo nasceu um dos mais impressionantes sistemas de terapia criados no século dos psicólogos: a logoterapia, ou terapia do discurso - um conjunto de esquemas lógicos usados para desmontar os subterfúgios com que a mente doentia procura eludir a questão decisiva: a busca do sentido.
Mas o sentido não teria o menor poder curativo se fosse apenas uma esperança inventada. A mente não poderia encontrar dentro de si a solução de seus males, pela simples razão de que o seu mal consiste em estar fechada dentro de si, sem abertura para o que lhe é superior. Em vez de criar um sentido, a mente tem de submeter-se a ele, uma vez encontrado. O sentido não tem de ser moldado pela mente, mas a mente pelo sentido. O sentido da vida, enfatiza Frankl, é uma realidade ontológica, não uma criação cultural. Frankl não dá nenhuma prova filosófica desta afirmativa, mas o caminho mesmo da cura logoterapêutica fornece a cada paciente uma evidência inequívoca da objetividade do sentido da sua vida. O sentido da vida simplesmente existe: trata-se apenas de encontrá-lo.
Universal no seu valor, individual no seu conteúdo, o sentido da vida é encontrado mediante uma tenaz investigação na qual o paciente, com a ajuda do terapeuta, busca uma resposta à seguinte pergunta: Que é que eu devo fazer e que não pode ser feito por ninguém, absolutamente ninguém exceto eu mesmo? O dever imanente a cada vida surge então como uma imposição da estrutura mesma da existência humana. Nenhum homem inventa o sentido da sua vida: cada um é, por assim dizer, cercado e encurralado pelo sentido da própria vida. Este demarca e fixa num ponto determinado do espaço e do tempo o centro da sua realidade pessoal, de cuja visão emerge, límpido e inexorável, mas só visível desde dentro, o dever a cumprir.
Em vez de dissolver a individualidade humana nos seus elementos, mediante análises tediosas que arriscam perder-se em detalhes irrelevantes, a logoterapia busca consolidar e fixar o paciente, de imediato, no ponto central do seu ser, que é, e não por coincidência, também o ponto mais alto. Eis aí por que é inútil buscar provas teóricas do sentido da vida: ele não é uma máxima uniforme, válida para todos - é a obrigação imanente que cada um tem de transcender-se. Discutir o sentido da vida sem realizá-lo seria negá-lo; e, uma vez que começamos a realizá-lo, já não é preciso discuti-lo, porque ele se impõe com uma evidência que até a mente mais cínica se envergonharia de negar.
A logoterapia tem uma imponente folha de sucessos clínicos. Porém mais significativa do que suas aplicações médicas talvez seja a função que ela desempenhou e desempenha - a missão que ela cumpre - no panorama da cultura moderna. Num século que tudo fez para deprimir o valor da consciência humana, para reduzi-la a um epifenômeno de causas sociais, biológicas, lingüisticas, etc., Frankl nadou na contracorrente e ninguém conseguiu detê-lo. Ninguém: nem os guardas do campo nem as hostes inumeráveis de seus antípodas intelectuais - os inimigos da consciência. Frankl apostou no sentido da vida e na força cognoscitiva da mente individual. Apostou nos dois azarões do páreo filosófico do século XX, desprezados por psicanalistas, marxistas, pragmatistas, semióticos, estruturalistas, desconstrucionistas - por todo o pomposo cortejo de cegos que guiam outros cegos para o abismo. Apostou e venceu. A teoria da logoterapia resistiu bravamente a todas as objeções, sua prática se impôs em inúmeros países como o único tratamento admissível para os casos numerosos em que a alma humana não é oprimida por fantasias infantis mas pela realidade da vida. Por isto mesmo a crítica cultural de Frankl, parte integrante de uma obra onde o médico e o pensador não se separam um momento sequer, tem um alcance mais profundo do que todas as suas concorrentes. Desde seu posto de observação privilegiado, ele pôde enxergar o que nenhum intelectual deste século quis ver: a aliança secreta entre a cultura materialista, progressista, democrática, cientificista, e a barbárie nazista. Aliança, sim: seria apenas uma coincidência que o século mais empenhado em negar nas teorias a autonomia e o valor da consciência também fosse o mais empenhado em criar mecanismos para dirigi-la, oprimi-la e aniquilá-la na prática? Dirigindo-se a um público universitário norte-americano, Viktor Frankl pronunciou estas palavras onde a lucidez se alia a uma coragem intelectual fora do comum:
"Não foram apenas alguns ministérios de Berlim que inventaram as câmaras de gás de Maidanek, Auschwitz, Treblinka: elas foram preparadas nos escritórios e salas de aula de cientistas e filósofos niilistas, entre os quais se contavam e contam alguns pensadores anglo-saxônicos laureados com o Prêmio Nobel. É que, se a vida humana não passa do insignificante produto acidental de umas moléculas de proteína, pouco importa que um psicopata seja eliminado como inútil e que ao psicopata se acrescentem mais uns quantos povos inferiores: tudo isto não é senão raciocínio lógico e conseqüente." (Sêde de Sentido, trad. Henrique Elfes, São Paulo, Quadrante, 1989, p. 45.)
Com declarações desse tipo, ele pegava pela goela os orgulhosos intelectuais denunciadores da barbárie e lhes devolvia seu discurso de acusação, desmascarando a futilidade suicida de teorias que não assumem a responsabilidade de suas conseqüências históricas. Pois o mal do mundo não vem só de baixo, das causas econômicas, políticas e militares que a aliança acadêmica do pedantismo com o simplismo consagrou como explicações de tudo. Vem de cima, vem do espírito humano que aceita ou rejeita o sentido da vida e assim determina, às vezes com trágica inconseqüencia, o destino das gerações futuras.
Frankl era judeu, como foram judeus alguns dos criadores daquelas doutrinas materialistas e desumanizantes que prepararam, involuntariamente, o caminho para Auschwitz e Treblinka. Se ele pôde ver o que eles não viram, foi porque permaneceu fiel à liberdade interior que é a velha mensagem do Sentido em busca do homem: "SE ME ACEITAS, Israel, Eu sou o Teu Deus."
(Publicado na revista Bravo! de novembro de 1997, e reproduzido em "O Imbecil Coletivo II")